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OS PRIMEIROS DIAS DO PÓS-PARTO

são muito importantes; é o começo da vida do bebê fora da barriga. Tudo muda no cotidiano da família — uma nova pessoa chega em casa! Uma pessoa que precisa de cuidado intensivo, que se comunica numa linguagem diferente da nossa, que até pouco tempo atrás vivia num ambiente quentinho, escuro, sem respirar e sem ter fome… (sobre essa transição que é o nascimento, recomendo ler Shantala, de Frédérick Leboyer).

O que precisa essa “pessoa pequena” (eu chamava o Francisco assim no comecinho)? Contato com o corpo da mãe e do pai. Peito e de colo.

Não é por acaso que chamam esse momento de lua de leite — linda essa expressão. Ela sinaliza também que a mãe e x bebê precisam de isolamento, um ambiente calmo e de gente de confiança ao redor para dar conta das atividades domésticas.

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Aqui, a sogra ajudou cozinhando todas as refeições para nós. Outras pessoas da família faziam compras e outras pequenas tarefas. O Marco, mesmo indo trabalhar, também fez muito. Eu levei a sério a dica de dormir e descansar sempre que possível. E recebemos poucas visitas. Assim eu poderia ficar bem à vontade, com os peitos de fora (coisa importantíssima nesses primeiros dias de amamentação), sem me preocupar com compromissos, relógios, hora marcada.

Em A maternidade e o encontro com a própria sombra, Laura Gutman ressalta como o pós-parto é o momento em que a mãe deve conectar-se com x bebê e consigo mesma — e para isso é preciso deixar de lado o mundo, o tempo, xs outrxs. A mulher tem a oportunidade de se redescobrir, assumindo seu novo papel no mundo: mãe e nutriz.

Depois que voltamos da casa de parto, fiquei uns dias dentro de casa. Não saí para nada. Talvez só depois de uma semana fui dar uma volta no quarteirão com o Francisco no sling. Que delícia era aquela sensação de caminhar com o corpinho dele junto ao meu! Era semelhante ao estado da gravidez, o meu corpo carregando outro. Fizemos duas visitas-relâmpago a uns amigos e aos avós. Preferia não me afastar de casa, onde me sentia segura para dar de mamar e descansar.

Em suma, passamos os primeiros dias do pós-parto bem recolhidos e concentrados. Mesmo assim, lembro o quanto as horas passavam voando — e o quanto foi valioso o silêncio e o repouso para acolher o Francisco na nossa vida.

“SERÁ QUE PRECISAMOS DISSO?”

é uma pergunta para se fazer muitas vezes, quando o assunto é “enxoval de bebê” (já escrevi um primeiro post, aqui). Abaixo, uma lista de coisas que não foram tão necessárias quanto parecia — ou que foram úteis durante um curto período de tempo:

(um parêntese para lembrar que essa lista vem da nossa experiência de mãe e pai; o que não nos foi importante pode ser de muita valia para outras famílias; cada uma vai descobrindo suas necessidades, variáveis, particulares…)

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— Carrinho de bebê: um amigo emprestou; nunca usamos, está desmontado e tomando pó.

— Carregador tipo mochila-canguru: mais de uma pessoa ofereceu; não usamos. Há estudos que apontam problemas nesse tipo de carregador. O sling é mais ergônomico e não prejudica o bebê, se usado corretamente. Recomendo o blog http://mamaedoula.blogspot.com — repleto de informação embasada a respeito.

— Banheirinha: compramos e está novinha, sem uso. Francisco tomava banho no balde e, desde os quatro meses, direto no chuveiro.

— Toalha de banho felpuda para bebê: ganhamos várias, mas usamos somente nos primeiros meses. Agora estão pequenas demais para o Francisco; faz um tempo que ele usa as mesmas toalhas que nós.

— Berço: emprestaram um de segunda mão, mas já o devolvemos; dormimos os três na cama.

— Trocador: compramos um modelo dobrável. Foi bem útil, até o Francisco aprender a rolar. Aí tornou-se perigoso. Fazemos a troca de fraldas no chão, apoiado num protetor de plástico.

— Penico: já deram um de presente. Mas estou pressentindo que não será necessário. Há poucas semanas o Francisco faz cocô no vaso sanitário. Será o tema de outro post.

— Cadeiras para bebê, tipo bebê-conforto: só para o carro, visto que é um artigo de segurança. Em casa, nunca. Ou ele ficava no colo, sling, cama, trocador ou no chão — apoiado em cobertas e protegido por almofadas. Não é aconselhável deixar o bebê num bebê-conforto durante muito tempo.

— Bandeja para comer: aquelas cadeiras para comer quase sempre vem com bandejas, sobre as quais se coloca a comida. A gente deixou a bandeja de lado. O Francisco come direto na mesa, junto conosco. Aqui um delicioso texto sobre o aprender a comer (já indiquei no post sobre blw, vale a pena repetir!).

— Mamadeira: não compramos, não ganhamos e não queremos. Assim como chupeta, a mamadeira cria um vínculo que prefiro que o Francisco não construa. O assunto é vasto. Líquidos ele bebe no copo ou garrafinhas.

— Sutiã de amamentação: falei no post anterior; não gostei de nenhum modelo. Os sutiãs normais, com protetor de pano, foram a melhor opção para mim.

— Bolsa de bebê: recebemos uma de presente mas logo nas primeiras semanas passei a usar uma mochila normal, ao sair de casa, levando fraldas e trocas de roupa. Achei mais prático.

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Em suma, para nós, algumas coisas que pareciam essenciais não foram necessárias. Cercados de apetrechos, a distância entre mãe, pai e bebê fica maior. O consumismo nos leva a crer que sempre nos falta algo. O melhor é se questionar: será mesmo?

Assim como nos perguntam “cadê a chupeta?”, já ouvimos “e o berço? e o carrinho?”; já fomos chamados de “cabeça dura”, “estranhos” e por aí vai… Dizer não a essas coisas e enfrentar o julgamento alheio exige força.

E de que precisamos, afinal?

Tempo, silêncio, boa música. Colo, peito, dormir junto. Carinho, beijo, abraço. Olhares e mensagens amigas. Comidas saudáveis, simples e gostosas. Aproveitar em cada pequeno detalhe esse momento irrepetível e que passa voando.

O CHORO E O SONO DO BEBÊ

são os assuntos mais comentados quando se tem um recém-nascido por perto. É receber uma visita ou encontrar alguém na rua e ouvir: “E aí, ele dorme bem? Dorme de madrugada? A noite toda? Chora muito?”

Admito que eu mesma já recorri a perguntas como essa. A gente nem sabe por que entra nesse tipo de conversa com mães e pais; por simples costume, quem sabe. Imaginamos que os primeiros meses de um bebê são marcados por dificuldade, por noites em claro e choros inexplicáveis.

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Grávida, ouvia muito outro tipo de conversa, aquela coisa meio ameaçadora: “Você vai ver o que é dormir pouquíssimo, com um bebê que não para de chorar”. Estranho isso, perceber x bebê como algo que vai incomodar. Eu já vivi muitas noites em claro, seja estudando, preparando aulas ou até no bar conversando com amigxs ou na balada. Seria tão ruim passar a madrugada acordada com um/a bebê? “O bebê faz manha, não faça todas as vontades dele, deixa chorar, não pega muito no colo senão acostuma…” Esse papo também me deixava desconfiada. Além do mais, me partia o coração ao ver alguém deixar seu/sua filhx chorar no berço ou no carrinho. Se está chorando é porque precisa de algo, não?

Fui então ler a respeito. Felizmente encontrei boas leituras, como a Laura Gutman e o Carlos González; eles deram o outro lado de toda essa história de choros, manhas e noites em claro. Também me deparei com algumas técnicas, métodos para acalmar ou fazer dormir x filhote. Até achei interessante a ideia do dr. Karp, dos cueiros, o ruído branco — de simular o ambiente uterino. Mesmo assim eu testei pouquíssimo essas ideias. Preferi a fusão emocional e a necessidade de contato físico de que falam Gutman e González.

“E aí, o Francisco dorme bem de noite?” Sim. Ele dorme junto conosco. Adormece quase sempre no peito ou embalado por alguma música. Dormir a noite toda é um mito. Bebês tem estômago pequeno e sentem fome de madrugada. Sempre dou peito quando ele precisa. O leite artificial é mais difícil de digerir, por isso alguns bebês dormem pesado por longas horas. Mas esse não é o nosso caso. É ruim criar essa expectativa do sono contínuo logo no primeiro ano de vida. É preciso aprender a dormir. E bebês podem aprender de várias maneiras….

“Mas o Francisco chora pouco, né?” Eu digo que ele chora quando precisa chorar. Em boa parte dos casos, e principalmente nos primeiros meses, o choro é um recurso extremo de comunicação. Se está chorando é porque antes tentou comunicar algo, por gestos, sons ou feições do rosto, que algo não está bom — mas não foi atendido. Pode ser fome, fralda suja, pessoa estranha, cansaço, tédio, tantas outras coisas.

E o que viria a ser a tal manha? Necessidade de contato, afeto, proteção?

Falando de choros que são interpretados como manha, um amigo contou uma história de sua infância — da qual ele não se lembra mas lhe contaram. Quando tinha uns dois anos de idade, e a irmã mais nova era bebezinha, ele começou a chorar muito. Pensaram logo que era manha, ciúmes. O choro continuou, levaram o menino ao médico. Saíram de lá com o mesmo diagnóstico. Dias depois, como o choro persistia, voltaram ao hospital: era apendicite o problema. Se tivessem esperado mais tempo, seria tarde demais. Por que se ignora o fato de que o choro sinaliza algum problema que deve ser levado a sério?

A gente buscou desde o início afinar a comunicação com o Francisco. Talvez por isso chore pouco — porque levamos qualquer resmungo, gesto agitado ou gritinho em consideração. Sei que há diversos tipos de temperamento, experiências as mais variadas. O tema é muito vasto. Vale ler o texto sobre choros no blog da cientista que virou mãe, um dos melhores a respeito. A síndrome dos pais sortudos, igualmente. E esse texto do Carlos sobre cólicas também.
Uptade: esses oito fatos são igualmente importantes!

Acima de tudo, fazer o esforço de observar o mundo pelos olhos dx bebê faz com que tudo mude de perspectiva.

A MATERNIDADE E O ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA, DE LAURA GUTMAN

é outro dos livros interessantes que descobri durante a gravidez. Estava lendo um relato de amamentação e lá encontrei a referência a ele. Fui atrás, encomendei, comecei logo a ler. Depois disso, em vários blogs, sites, relatos que eu acompanhava, via a mesma indicação de leitura.

Laura Gutman é uma best-seller. Tem um instituto em Buenos Aires, onde orienta famílias; muitos livros publicados; dá palestras, entrevistas. Em razão do sucesso de A martenidade…, ano passado, dois outros livros seus ganharam tradução para o português.

O livro parte de uma ideia muito elementar: a de que mãe e bebê vivem, nos primeiros momentos, uma relação fusional. O bebê vive no interior do corpo de sua mãe, durante a gestação. Mas, mesmo ao nascer, separado daquele corpo, a fusão ainda se mantém — falar de mãe ou de bebê é falar dos dois ao mesmo tempo.

Essa dimensão fusional é tratada em diversos escritos. Até mesmo em Shantala: a massagem conduz mãe e bebê a se descobrirem.

O bebê tem a capacidade de revelar à mãe sua sombra, ou seja, tudo aquilo que ela rejeita ou renega a respeito de si mesma. O pós-parto seria o momento-chave, durante o qual a mãe entra em contato com sentimentos contraditórios, inesperados.

Cabe à mãe colher a oportunidade de encontrar com sua própria sombra. Mas como a sombra dá medo — é obscura, misteriosa, pesada — muitas mães evitam esse processo de autodescoberta. Deixam a cargo da criança manifestar a sombra, das maneiras mais diversas: problemas na amamentação, doenças, desvios de comportamento, por aí vai… Em suma, qualquer interferência na relação fusional vai se manifestar, muito provavelmente, por meio do bebê.

Por esse ponto de vista, a autora comenta uma série de situações da maternidade: a gravidez, o parto, o papel do pai, a amamentação, a vida sexual, o sono, o nascimento de um segundo filho, a escola, o retorno à vida profissional…

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Outro ponto que me chamou muito a atenção durante a leitura: o bebê que temos nos braços se vincula ao bebê que também somos. Isso me encantou: acompanhar o Francisco me faz rever e renovar a criança que sou eu, que eu fui. Minha descoberta do papel de mãe envolve questionar como eu vivi minha infância, relembrar situações, buscar novos meios de me relacionar com o mundo.

Gutman também trata das doenças como manifestação da sombra — como uma mensagem que enviamos a nós mesmos. A mudança de alimentação pela qual estou passando faz parte desse meu esforço em entender melhor meu corpo e minhas necessidades (escrevi sobre isso aqui e aqui). Já me perguntei se a água que bebia em exagero não era algo que eu escondia de mim mesma.

Minha intenção neste post não é resumir o livro, até porque um post não dá conta disso, dada a variedade de temas que ela aborda. Escrevendo como fiz nos parágrafos acima, o livro pode parecer confuso, hermético. E não é. A escrita de Gutman é bem simples, sensível. Ela ilustra suas ideias com casos de mães, pais e filhos que ela atendeu em sua longa experiência como psicóloga.

O livro se dirige não somente a gestantes, mas a mães e pais de bebês, crianças pequenas, até mesmo adolescentes. Desde a gravidez, já o reli em vários momentos, discutindo sempre com o Marco.

Para finalizar, aponto dois aspectos que faltam ao livro. Primeiro: sinto falta de relatos autobiográficos. Gutman é mãe: como ela viveu sua autodescoberta? Ela se limita a descrever seus partos. Por que não fala mais sobre si? Segundo: em poucos momentos ela traz a referência às ideias que apresenta: Jung e Rüdiger Dahlke são alguns deles. Winicott parece ser um autor que a inspira mas ela não o cita. De qualquer maneira, o tema me interessa tanto que estou começando a ir atrás dessas leituras relacionadas. Assunto para outros posts…

SHANTALA, DE FRÉDÉRICK LEBOYER

é um dos livros que mais me fizeram chorar. Lembro que li na cama, deitada, numa tarde de sol. Talvez fosse sábado. Devia estar no quinto mês de gestação. Emocionei-me além do que esperava.

Isso porque Leboyer — renomado obstetra francês, que mudou a percepção do parto, junto a Michel Odent e outros — não está somente explicando os passos da massagem para bebês que leva o nome de Shantala, moça indiana que ele encontra em Calcutá. O livro fala sobre a passagem dos bebês do meio uterino ao nosso mundo. Fala também da relação que podemos construir com os bebês: toques, abraços, afagos e carinhos conduzem mãe e bebê numa trajetória de mútuo autoconhecimento.

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O corpo do bebê, massageado, recebe conforto, tranquilidade e segurança. As mãos que massageiam aprendem a delicadeza e a força de que se constituem os bebês. Ambos dão e ambos recebem.

Como já adiantei em outro post, comecei a fazer massagens no Francisco desde as primeiras semanas. Mas nunca segui os passos da shantala rigorosamente; quando tentava, não funcionava. Interrompia porque o Francisco queria dormir ou mamar. No fim das contas, fazemos uma massagem nossa, seguindo nosso próprio ritmo.

O mais importante para nós foi seguir o princípio daquilo que a shantala transmite: contato pele a pele, reverência pelo bebê…

Leboyer fez um filme com Shantala e seu filho. Pela internet afora, é possível encontrar quem explique os movimentos da massagem. Pessoas oferecem cursos e oficinas também. Ainda assim, nada se compara à leitura da escrita muito rica e poética que Leboyer nos dá.

VOCÊ QUER AMAMENTAR?

— Sim; foi sempre essa a minha resposta.

Ao longo da gravidez, informei-me bastante sobre amamentação. De toda forma, sinto que ainda não sei o suficiente. E por mais que tivesse lido estudos e guias, relatos, visto vídeos, acompanhado grupos de discussão, só depois, na pele, fui perceber o quanto um ato fundamentalmente instintitvo (somos mamíferos, não é mesmo?), que faz tão bem à criança e à mãe, é cercado de tanta dificuldade.

Pois sim: amamentar é difícil — mas cada pedra no caminho não supera a beleza, a conexão e o amor que envolvem esse ato. É triste constatar que a delicadeza da relação entre mãe e bebê pode ser rompida tão facilmente. Basta um momento de insegurança em relação ao leite materno, ao sono e ao peso do bebê; basta uma indicação médica errônea; basta um olhar enviesado de algum membro da família ou amigos; basta uma prateleira no supermercado repleta de mamadeiras e leites artificiais, com rótulos gentis… Em suma, a falta de informação e de apoio — frente ao forte apelo das indústrias de alimento — rompe todo um processo natural e importante para mães e bebês.

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Nada se compara ao olhar do bebê ao mamar no peito — olhar profundo esse que é também da mãe, observando seu bebê. Ambos silenciosos, ambos alimentando-se um do outro.

De maneira bem sucinta: o recomendado é amamentar exclusivamente e em livre demanda até que o bebê atinja os seis meses de idade. A partir daí, o leite materno continua sendo a principal fonte de alimento do bebê até um ano, período em que vai começando a comer outros alimentos. O desmame deveria acontecer a partir dos dois anos, em acordo entre o bebê e a mãe.

Ao visitar amigos com filhos pequenos, vez ou outra, Marco e eu perguntamos sobre como foi a amamentação. A partir das experiências que ouvimos, é possível desenhar algumas situações em que o desmame acontece de maneira precoce.

A mais drástica: o bebê não amamenta desde o início ou desmama nos primeiros meses. Conversando com a podóloga, ela disse que era uma exceção quando criava seus filhos pequenos, 20 anos atrás, na Grécia. 9 entre 10 mulheres deixavam de amamentar o mais rápido possível, para que pudessem voltar a fumar. Já haviam interrompido o hábito durante a gravidez, o que parecia muito tempo… Era moda fumar, e não dar de mamar. Pode-se dizer que esse tipo de caso não acontece somente na Grécia, tampouco se limita àquela época.

De maneia mais frequente, a substituição do leite materno por artificial acontece aos 4 meses, momento em que a mãe volta ao trabalho. A licença-maternidade é curta demais para que ela dedique-se ao bebê. O leite artificial mostra-se mais “prático”. Outras pessoas da família podem dar a mamadeira ao bebê. Ele bebe uma quantidade definida. O leite artificial é mais pesado, o que faz com que ele durma ininterruptamente durante a noite. Mas não se mede os prejuízos que toda essa praticidade traz ao bebê, aos seus vínculos afetivos com a mãe, ao seu aparelho digestivo ainda imaturo, ao seu ritmo de sono… Mesmo mães que ficam em casa com os filhos acabam largando a amamentação por conta dessas aparentes vantagens — algo semelhante às mães gregas de que falei acima.

Uma mãe que conhecemos resolveu dar mamadeira com leite artificial à filha para que ela tivesse mais liberdade: ela queria voltar a sair de noite com as amigas, ir ao cinema. A bebê tinha por volta de 5 meses… O que aconteceu? Ela começou a rejeitar o peito, quando a mãe oferecia seu leite. Beber na mamadeira oferece menos dificuldade do que sugar o seio (o movimento de sucção dos bebês no peito favorece toda a musculatura bucal, auxilia a fonação e o processo de fala, que acontecerá no futuro). Perderam as duas, mãe e filha. A mãe entristeceu-se, pois não havia se informado sobre a confusão de bicos e que oferecer mamadeira (e outros bicos artificiais, como chupeta) pode colocar em risco a amamentação. Ela gostaria de ter prolongado aquele momento tão singular que tinha com sua bebezinha.

Outra amiga também entristeceu-se muito ao perceber que seu filho estava demonstrando cada vez mais interesse pela mamadeira. Ele desmamou quando tinha pouco mais de 6 meses. Ela não precisava voltar ao trabalho, não sentia necessidade de sair sem o filho. O que houve dessa vez? A preocupação com a fome do bebê. Ele sempre pedia para mamar. Ela decidiu então dar o leite artificial como complemento, pensando que seu leite não fosse o suficiente.

Esse é um dos mitos que mais circulam: que o leite materno não satisfaz e não dá conta das necessidades do bebê. Fico imaginando se uma mãe gorila, morcega ou capivara vacile quanto ao seu próprio leite. Arrisco dizer que só mães humanas desconfiam de suas capacidades. As razões são inúmeras, um post é pouco para tratar disso.

O Francisco pede muito o meu peito. Não é somente por fome no sentido estrito. É fome de calor do meu corpo, do conforto dos meus braços, do acalanto das batidas do meu coração; é vontade do meu cheiro, do meu toque, de estar juntinho o tempo que for. Por isso, como disse acima, amamentar é uma relação — amorosa, sobretudo. Numa amizade ou num namoro, conta-se quanto tempo dura uma conversa no bar, as ligações telefônicas, quantos beijos e abraços foram trocados? Por que devo então contar quantos mililitros de leite meu bebê ingere, durante quantos minutos ele fica no peito? Por que achamos um exagero um bebê querer ficar junto do corpo de sua mãe, dormir com ela?

E, para terminar o post (mas sem dar o assunto por encerrado): por que uma experiência tão singular para todos nós — afinal, todos um dia fomos bebês — é abreviada e frustrada em muitos casos? Que consequências isso traz para a nossa formação e crescimento?

“ESCUTE SEU CORAÇÃO”

foi o que uma terapeuta disse para mim, a respeito da criação de filhos. A frase é um clichê — mas nem por isso deixa de ser tão verdadeira. Escutar o coração seria deixar falar a voz interior, amar com todas as forças, sem limite.

ovonovo_-9Não dá pra escutar direito o coração quando se aceita tudo o que dizem os médicos; quando se quer agradar e obedecer aos conselhos que a família repete; quando fazem comparações com outras mães, pais e bebês; quando se pensa em seguir um manual de como viver com um bebê; quando se dá ouvidos aos palpites da velhinha no ponto de ônibus.

É difícil escutar o coração em meio a tanto barulho.

Escutar o coração não é afrontar, nem fugir dos rumores — até porque silenciar o mundo não seria possível. É ouvir, filtrar, refletir sempre. Procurar nas palavras dos outros algo que encontre eco, que entre em sintonia com o que temos lá dentro. Difícil, sim. Mas quem disse que seria fácil?