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ERA UMA FESTA DE HALLOWEEN

numa república. Conhecia pouca gente por lá. Logo me enturmei e estava papeando numa rodinha. O tempo passa e quando me dei conta estava sozinha conversando com um cara que fazia geografia. Bonitinho, simpático, falador. Ele pesquisava sobre pedestres. Achei demais o tema — era algo que eu mesma gostaria de estudar!

À conversa se seguiram beijos e abraços. No fim da festa, queria ir embora comigo. Morava bem longe, com os pais; precisava esperar o metrô, depois pegar ônibus… Eu estava a poucos minutos a pé de casa. O que fazer?

Resolvi levá-lo para passear nas redondezas. Augusta, Paulista, Brigadeiro, Bixiga. Percurso improvisado, passos calmos, pausas aqui e ali. Quando o sol já estava chegando, tomamos um café perto da Câmara. Próximo ao Anhangabaú nos despedimos com telefones trocados — ele, cheio de promessas de reencontro, dizia-se fascinado com a minha ideia de ficar perambulando pelas ruas do centro.

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Mas talvez não tenha sido assim tão maravilhoso como ele mesmo repetia. Convidei-o outras vezes, porém havia sempre alguma desculpa: — “é fim de semestre, deixa pra depois; estou super atarefado”… Tempos depois descobri que ele me contou coisas que não eram verdade. E fui percebendo que os elogios que recebi poderiam ter sido só um artifício de paquera — e que não eram de coração.

E assim foi essa pequena história da moça que quis se vestir de bruxa e levou um moço de longe para passear pelos labirintos de um território que ela conhecia tão bem. Foi passear, procurando quem tivesse disposição para acompanhar e descobrir novas estradas.

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PASSEANDO COM A HOLGA

as coisas que eu já conheço na cidade vão tomando uma outra forma, o céu ganha outras cores, como se fosse num sonho, como se fossem um desenho no caderno.

BOAS PEQUENAS COISAS

na rua – como o escadão que liga a Avanhandava ao comecinho da Frei Caneca, com a Caio Prado. Dias atrás passei por lá, ela estava interditada – a tristeza bateu: vão fechá-la? murar a escada? Não, que bom! Ela agora está novinha, degraus refeitos.

DESCIA A RUA

Paim e no meio das demolições todas descobriram uma igrejinha no fundo de uma casa, em estilo neogótico. Ela seria demolida também? Não pude saber. Só via subindo a rua uma procissão grande, com muitas crianças. Mais para baixo, outras crianças não participavam da procissão, mas jogavam bola. Parecia que quem acompanhava a procissão era rico, quem brincava de bola não.

NO PRIMEIRO SONHO

de ontem, o filho de um aluno estava um pouco mais crescido, e já falava coisas de adulto: a rotina corrida do pai, a vontade de assistir um show de samba. Eu olhava para ele e me dizia que duas coisas estavam fora de lugar: ele já tão grande e a conversa dele.

Em outro, eu tinha muitas coisas para fazer num curto espaço de tempo. Meio atradasa, resolvo sair voando por cima dos prédios, para chegar mais rápido. Olhando para tudo de lá do alto me dou conta: se isso é um sonho, porque preciso cumprir obrigações e respeitar horários?

A MÚSICA FAZ

o que ela diz:

– Ando pela rua, cantarolando uma das suas músicas. Eu só sei um versinho lá do meio, e me dá vontade de ouvi-la de novo, de novo e de novo. Todos os dias eu ouço a sua música, agora, todo dia, o dia todo. Aí eu fico cantarolando a música, andando.

Eu só sei um versinho lá do meio, e me uma dá vontade ouvi-la de novo, de novo e de novo; de novo, de novo e de novo…

EU FIZ LISTAS

de coisas a fazer, assuntos para conversar, datas importantes para lembrar, leituras, filmes, lugares para conhecer, alguns pedaços de música; mas de nada adianta: o que sai na hora é imprevisível.

Há também uma lista de regras que eu mesma me coloco, uma pequena disciplina para coisas simples do cotidiano: coisas que eu devo fazer todo dia, outras coisas pra não fazer sozinha. Elas valem durante um tempo. Por que deixo essas regras de lado?

Das duas uma: ou não sei fazer listas, ou não sei como segui-las – ou vai ver é assim mesmo que as listas são.