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SEMPRE ME PARECEU

um dever, para mim, a leitura da produção literária brasileira contemporânea – um dever daqueles que eu não sigo como gostaria. Não somente para alimentar o repertório de assuntos em rodas de colegas em festas e jantares. Mas pelo fato de que são obras de pessoas que estão aí, andando pelas ruas, pessoas com as quais podemos encontrar e falar. Já fui apresentada ao Miltom Hatoum, por exemplo, e fiquei vexada de conhecer a obra dele de longe somente. De não ter lido nada, nem que fosse para falar mal. Até hoje ainda não peguei nada do Hatoum para ler… porque a prioridade foram as leituras obrigatórias do curso.

Enfim, mas encontrei no trabalho que fiz em dezembro para a rádio francesa (merci enorme para Daniela Prado) o escritor Bernardo Carvalho, e gostei muito da postura dele, da maneira como colocava suas opiniões. E é um cara respeitável e tudo. Sabia que o último livro tratava da imigração japonesa em São Paulo. Aí fiz o percurso básico até a livraria comprar O sol se põe em São Paulo, lançado em 2007.

E não somente: comecei a caçar na internet entrevistas e coisas do tipo. Enquanto lia ainda o livro, peguei esse texto da revista rascunho, no qual Bernardo levanta as questões que toda pessoa envolvida com literatura (seja escrevendo, seja lendo ou estudando) se faz: para que serve a literatura? serve para alguma coisa ou não tem que servir para nada mesmo?

De uma maneira ou de outra, Bernardo Carvalho leva à sério a reflexão, e a coloca de maneira central neste romance, resultado talvez de um impasse no qual ele se encontrava depois de dois livros bem-sucedidos. Ligado ao pensar-sobre-literatura, ele constrói ao mesmo tempo uma investigação, de retorno às origens, romance de viagem e de aprendizado, coisa do romance por excelência.
Por mais que em alguns momentos force a mão na linguagem, tentando ser muito explícito, ou muito explicativo, o que para mim cansa, aprecio o fato de um livro prender a leitura. E foi o que aconteceu comigo. Lia grudada ao livro.

E viagens distantes, pelo que me parece, estão sendo mais frequentes para Bernardo. Ele que foi ao Japão, para escrever o livro (poderia ter feito como Chico Buarque em Budapeste, escrever sobre um lugar sem ter ido?…) sem ajuda financeira, com poucos recursos próprios, ficou um mês em São Petersburgo por conta de um projeto bem ambicioso, Amores expressos: dezesseis escritores brasileiros em diversos lugares do mundo escrevem histórias de amor, mantêm um blog durante a viagem (o de Bernardo aqui), para que depois os livros sejam adaptados ao cinema. Interessante, não?

Voltando a O sol se põe em São Paulo, uma coisa ele vai deixar comigo: a idéia de que as histórias são essenciais para vida, e que devemos ouvi-las e contá-las, antes de morrermos.