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UM POETA AFRICANO

fazia uma visita por aqui. Ele compunha seus poemas em frente ao público, por escrito, numa grande lousa. O público se sentava ao redor e olhava o trabalho do poeta. Ao mesmo tempo, ele escrevia com o que observava nos rostos das pessoas que o assistiam, em silêncio. Era então, na lousa, um poema daquele encontro, feito para aquele instante.

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EM VEZ DE DIZER

outra coisa diz por nós.

Por falta do que dizer – por falta de conhecimento da própria situação? – a citação, a imagem de uma música, a referência a uma personagem.

O que Cecília Meireles disse também não é só dela era de outro lugar; ela deixou falar outras coisas?

Seriam das minhas coisas, afinal, de que ela fala?

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

DO MESMO JEITO

que ela uma vez achou num texto meu um pouco de si, eu vi num poema seu tudo o que eu posso dizer sobre o que está acontecendo.

Poema parco

E o que se tornará
Além dessa ânsia de abismo
Dessa certeza de ar
Desse chão que evapora?

Seu efeito
Tenho certeza em abismo
Palavra em desmembramento de significante
O concreto não delineado, chão a evaporar
Mas quero por algum motivo
Essa textura de nuvem, esse movimento
Premeditado, essa conversa muda

vanessa soares de paiva, s/d.

Além disso:

– sonhei que era uma bandida num bairro como o Ipiranga, mistura de centros velhos de cidades diferentes, casas coloridas, gangues. Uma feira de livros, eu via a coleção da Perspectiva – e conseguia ler o que estava nas capas! Tinha ao menos os clássicos, O teatro épico de Anatol Rosenfeld e o Personagem de ficção – leituras do primeiro ano de letras. As capas eram antigas, amareladas, mesmo o laranja tinha muito de amarelo. Um senhor desdentado no meio da rua puxa briga comigo, tira a peixeira, eu tiro uma faca também e começa a luta, interrompida pelo despertador.

– há mais, mas a chuva é muita, mas eu preciso dormir.

MAIS UM

e mais outros desenhos no bloco. folha branca, riscos a lápis meio sem precisão, sem foco mesmo. desenhos incompletos, sem decisão, sem saber para que lado olhar.

tive sonhos com um sarau de poemas: eu escolhi ao acaso um de Ana Cristina César, que eu conheço pouco, de quem li umas coisas meio recentemente. escolho um que tem algo como “eu me lembro que não me lembro mais do que eu me lembro”… nem sei se isso dela existe. mas no fim das contas o sarau acaba e eu não li o poema. fico meio triste.
depois fico conversando com alguém que não sei quem é sobre “antes do amanhecer” e “antes do pôr-do-sol”, os filmes.

ESSA HISTÓRIA TODA

de acordo ortográfico, além de movimentar a máquina editorial, as caras consultorias empresariais e dar assunto de conversa em quase todas as rodas (seja na fila do banco, seja no curso de Letras, seja no Jornal Nacional), faz as pessoas pensarem na língua ou não?

Penso nisso além de tudo porque fui ao Museu da Língua Portuguesa esses dias, ver a exposição do Machado (sempre Machado).

No acervo fixo do museu, aquela projeção de poemas, o de Gregório de Matos, muito bem interpretado e realizado com apuro visual, é o único que vem acompanhado da referência da época em que foi escrito: “século 17”. Isso porque seria facilmente confundido com um rap de hoje em dia?


do pouco que conheço, gosto dele, sabe…

Agora com as modificações do acordo, como ficam todas as apresentações fixas do museu? Terão que ser readequadas? Nossa, que trabalhão vai dar.

Não gosto muito das mudanças a que temos que nos submeter: como diferenciar a pronúncia de teia e ideia? Ai que triste…

Será que nessa correção o pessoal do museu vai alterar a grafia de caraoquê (na lista de palavras de origem asiática) para karaokê, como todo mundo usa? Fora o museu e o dicionário Houaiss, poucos são os que ousam escrever caraoquê. Caraoquê me lembra piteça, forma que um daqueles gramáticos doidos queria que fosse dada a pizza.

SOU MAIS DA PROSA

que da poesia, e o que me atraiu ao livro de Nathalie Quintane, Começo (Début), publicado em 2004 pela 7letras e Cosac&Naify, foi o sub-título entre colchetes:
[autobiografia]

Je m’appelle encore Nathalie Quintane. Je n’ai pas changé de date de naissance. J’habite toujours au même endroit.
Je suis peu nombreuse mais je suis décidée.

Eu ainda me chamo Nathalie Quintane. Não mudei de data de nascimento. Ainda moro no mesmo lugar. Sou pouco numerosa mas sou decidida.

Assim ela se apresenta no site do seu editor, onde ela mantém uma produção considerável, regular e constante. Além das publicações, Nathalie faz leituras públicas e vídeos de seus poemas.

Autobiografias em poemas como Começo, que se assumem como tal, são menos comuns, mas existem. Nesse caso, Nathalie página a página, com poemas em prosa e com a dicção da prosa, recupera momentos e objetos da infância, adolescência, até um fecho pouco positivo, “a entrada no mercado de trabalho”.

Acho que se pode ver os poemas de Começo como um todo, ou pelas seções que dividem o livro e ficam cada vez menos marcantes, ou separadamente.
Prefiro considerá-los pelas seções, deixar algumas dessas seções de lado, e dizer que as que mais apreciei foram as iniciais. Talvez as menos autobiográficas, uma vez que elas discorrem sobre fatos corporais, as sensações destacadas da inércia rotineira. Me lembrou Amélie Nothomb e sua vida de bebê-cano, que ela narra em Metafísica dos tubos.
Um trecho:


Começo 4

Porque não nasci com uma colher na boca, é preciso a cada vez que ela chegue de fora.
(…)

Porque o meu nariz não cresceu para dentro, é o fora que eu respiro.
(…)

Porque os meus ossos estão ligados por nervos e por músculos, sou feita de uma só peça.
(…)

Só de botar o dedo na água, sente-se bem que não é assim tão natural que ele esteja normalmente no ar.

Desnecessário dizer o seu nome corretamente para saber que é este aí.

A constante descoberta do corpo como movimentos e possibilidades me pareceu um traço da poesia de Nathalie. Falo isso também por conta do vídeo a seguir:

O blog da revista Modo de usar fala melhor que eu sobre a autora e apresenta outro trabalho em áudio. Tudo devidamente traduzido para o português. Legal saber que eles são da livraria Beringela, um lugar muito bacana que visitei lá no Rio.