Arquivo da tag:

MEUS PÉS

sempre foram meio estranhos a sapatos; a maior parte deles me machucava, pelo menos quando eram novos. Pequena já tinha umas calosidades na sola, lembro bem. Tornei-me adolescente e os pés cresceram tanto que hoje calço 39 — é bastante para quem tem 1,68 de altura.

pes_ballet

Quando li “Iracema”, de José de Alencar, na escola, impressionei-me muito com os pés sedosos da índia. Eu, uma menina urbana, que anda descalça somente em casa, tinha os pés muito mais ásperos e duros do que os dela. Esse trecho do livro foi o que mais me marcou:

Mais rápida do que a ema selvagem, a morena corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Naquela época mais ou menos tinha uma música dos Raimundos que também falava de um pé cuja sola era feito pneu. A nêga andava na pedra e a carcaça grossa deixava uma marca no chão — diferente da suave dança dos pés de Iracema.

pes_amarelo_a

Anos e anos depois, já na faculdade, usei a citação acima como epígrafe para uma curta resenha sobre “A pata da gazela”, outro romance de Alencar. Estava estudando as obras urbanas e os perfis femininos do autor, na disciplina de literatura brasileira sobre o romantismo.

O ponto em comum entre Iracema e a heroína de “pata da gazela”, Amélia, é a caracterização dos pés. Mas se os pés da índia são macios, os da mocinha do Rio de Janeiro são feios. Ela os esconde sempre que pode. Seus sapatos, feitos sob medida, são estranhíssimos. Identificava-me mais com os pés da Amélia, eu, Ana Amelia.

Eu poderia ainda falar dos pés femininos nos filmes do Tarantino… talvez fique pra outro post. Neste aqui, continuo relatando meus pés e sua relação com a saúde.

DSCN5015

Eles sempre foram meio estranhos. Decidi evitar ao máximo sandálias abertas, para não mostrá-los tanto. Salto fino e alto também não combinavam comigo. Nem bico fino. E assim fui caminhando pela vida adulta, com sapatos lindos, um tanto caros, como esses aqui

Faz uns três anos apareceu micose. Ela me levou a descobrir a reflexologia, que tem me feito muito bem, por tratar da saúde de maneira integral. Todos os órgãos do corpo estão representados na sola do pé. A massagem ativa e identifica pontos que merecem atenção: o intestino, o pulmão, e por aí vai. Em seu tratamento, pude descobrir que meu sistema imunológico estava fraco, o metabolismo baixo e que eu precisava mudar a alimentação — algo significativo para mim que não sabe comer

Com ela descobri algumas obras de Rüdiger Dahlke, que trabalha com o significado das nossas doenças, sua simbologia e o aprendizado que elas podem nos trazer. O verbete sobre micose de um de seus livros reflete justamente o momento em que estou passando na vida.

Também encontrei uma ótima podóloga. Com ela, meus pés já não estão tão ásperos como antes. Ela prestou atenção à minha postura corporal. Graças a ela, procurei ajuda ortopédica, estou usando palmilhas nos calçados para mudar a posição dos dedos.

DSCN5014Em suma, se eu tivesse tratado a micose de maneira específica, sem olhar para o corpo e a mente como um todo, teria perdido a oportunidade de conhecer mais a fundo outros problemas de minha vida, outros pontos que merecem atenção. Mesmo tendo visitado anteriormente clínicos gerais e dermatologistas, nenhum deles havia sinalizado o que a reflexoterapia e a podologia me mostraram.

Isso me lembra o terceiro capítulo do filme “Caro diário”, de Nanni Moretti. Ele relata sua incansável busca de uma resposta para suas coceiras. Médicos mil. Vários remédios. Nenhuma solução. Quando, por acaso, ele visita um terapeuta chinês… bom, não vou contar aqui como termina a história. Vale ver o filme todo, ou pelo menos o trecho, aqui, com legendas em inglês.

pes_amarelo_bEste post é ilustrado por fotos de ex votos em Aparecida. Fui lá com uma amiga que precisava pagar uma promessa. Das várias fotos que fiz ao longo do passeio, essas dos pés me marcaram. Coincidência ou não — aquelas coisas curiosas da vida — na mesma época eu tinha mania de desenhar pés, nos cantos das folhas de anotação de aulas e reuniões. Até comecei a criar uma história em quadrinhos cuja personagem principal era um pé.

Quem sabe os ex-votos e meus amontoados de pés queiram me mostrar que o caminho para a cura dos meus pés talvez envolva algo de religioso, espiritual, sagrado. Quem sabe…

JÁ PENSARAM

que eu era bailarina, por conta dos meus pés; que eu era arquiteta, pela minha letra; que eu tinha uma banda, porque falava muito de música durante as aulas; que eu me chamava Cristina ou Laís; que eu tinha nascido no interior, a família morava toda lá; que em São Paulo eu dividia um apartamento com meu irmão; que eu era carioca; do sul; chilena, árabe, italiana.

Já disseram que as mãos são de pianista, os dedos muito pra fora; que o nome é de personagem do Camilo Castelo Branco; o nariz mostrava minha origem grega; os pés, novamente, fenícios. Que os olhos têm íris exemplares; o jeito, de personagem de Jane Austen; ou Mafalda; que tenho tudo a ver com Talking Heads; que poderia ser adulta nos anos 80, comendo sempre no Frevinho, descendo a Augusta cantando Ná Ozetti.

– E não sou eu?

SURPRESA NA SALA DAS PROMESSAS

em Aparecida, me dei conta de que alguns dos meus desenhos obsessivos que faço nas margens das folhas, durante aulas, podem se assemelhar a ex-votos.

DSCN5015

DSCN5014