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O MÊS DE MARÇO

já foi, em outros tempos, o primeiro do ano; acaba a dureza do verão e do inverno, as estações brandas começam. Depois de fevereiro, mês de morte e purificação, março tem esse nome porque assinala o momento em que se parte para a luta.

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ANTES DE DORMIR

lia um livro; em algum momento ele ficou de lado, fechei os olhos. Já dormia, mas o livro quis continuar: eu contava a história para mim mesma, cheia de pequenos detalhes, nomes inventados, pessoas que se procuram entre estantes na livraria. Quando descobri que aquela voz que me falava era eu, que me inventava continuações para os dois personagens principais, o Leitor e a Leitora, acordei espantada. A história toda que eu me contei evaporou.

MANDIOQUINHA COM QUEIJO

não é bem uma dupla, mas um grupo no qual a mandioquinha ocupa o primeiro lugar, incontestável, gosto de tempo frio, em qualquer forma que seja. Tem um nome carinhoso em português e outros muito particulares em outras línguas: white carrot, arracacha, apio criollo, etc. etc., que costumam aproximá-la sempre de outros vegetais com os quais ela parece – mas que nunca é.

JÁ PENSARAM

que eu era bailarina, por conta dos meus pés; que eu era arquiteta, pela minha letra; que eu tinha uma banda, porque falava muito de música durante as aulas; que eu me chamava Cristina ou Laís; que eu tinha nascido no interior, a família morava toda lá; que em São Paulo eu dividia um apartamento com meu irmão; que eu era carioca; do sul; chilena, árabe, italiana.

Já disseram que as mãos são de pianista, os dedos muito pra fora; que o nome é de personagem do Camilo Castelo Branco; o nariz mostrava minha origem grega; os pés, novamente, fenícios. Que os olhos têm íris exemplares; o jeito, de personagem de Jane Austen; ou Mafalda; que tenho tudo a ver com Talking Heads; que poderia ser adulta nos anos 80, comendo sempre no Frevinho, descendo a Augusta cantando Ná Ozetti.

– E não sou eu?

DO MONTE DE COISAS

que nos atravessam todo dia, nomes, sons, lembranças e notícias, pouco fica – e não haveria outro jeito. E o que fica, para mim, é o que consigo colocar numa narrativa, uma história mínima que seja, que prenda esse fio solto a outros fios: uma pessoa existe, veio de um lugar, é rodeada de outras pessoas, que se juntam  num bairro, numa cidade. Das coisas que faz, preciso criar um sentido, mesmo que inventado.

Isso tudo, vai saber porquê, pensei pensando no documentário Dzi croquettes, que fui ver ontem. Ou talvez o porquê não seja tão difícil de encontrar: o ponto de vista duplo do filme (histórico e pessoal) resgata e inventa uma infância.

TUDO É VERDADE

em “A mulher de 30 anos”, de Balzac. Peguei o livro como uma autopiada (e para entender o fato de Balzac ter se tornado padrinho das mulheres de 30) e saio com muito mais do que esperava. Nenhuma lição moral e ao mesmo tempo uma grande lição moral.

A verdade e a realidade sem nenhuma base sólida. Mesmo com as incoerências mais evidentes – um capítulo termina em 1823, o seguinte continua em 1821-, com erros de continuidade que Balzac não escondia do leitor, e justificava como podia: apelando justamente para a vontade do leitor. É o leitor que quer que as mulheres daquelas histórias sejam uma só. Como talvez ainda hoje vejamos sempre as mesmas personagens de uma história a outra: de Truffaut a Manoel Carlos…

Ou mesmo em “Almas à venda”, de Sophie Barthes, que coloca Paul Giamatti fazendo ele mesmo, já sem a surpresa que o recurso trouxe em outros filmes. De que maneira o filme explora a homonímia? Nos fazendo lembrar de que os atores, querendo ou não, vendem as suas almas?

Ideia maluca terminando o post: um biofilme sobre Balzac com Paul Giamatti – no papel de Balzac.

MEU CPF PERDIDO

ou talvez o cpf de todo mundo tenha sido cancelado.

Sei que eu pelo menos deveria fazer um novo cpf. Fomos todos a um tipo de poupa-tempo. Uma sala onde senhores distribuíam, com um critério desconhecido, senhas. Uma hora um senhor dizia: – Só para os homens. Depois: – Só para as mocinhas!… Aflita, fiquei atrás de um senhor que decidiu me entregar a senha, que já era uma ficha para preencher.

Todo mundo acabou conseguindo a sua ficha.

Fui num balcãozinho preencher meus dados. A caneta que eu tinha era vermelha, uma bic comum. O número do meu cpf, eu tinha esquecido, e no sonho ele foi me aparecendo diferente do que ele é na realidade. Mesmo assim, fui preenchendo com esse número estranho, que me ludibriava.

Ele mudava, se esquivava. Eu rasurava a ficha, que ficava amassada, com dobras fortes.

Na hora de assinar, eu fiz o movimento de mão habitual e a assinatura saiu muito diferente. Fiquei aterrada, preocupada. E agora, com essa assinatura diferente, como é que eu vou apresentar essa ficha?

Como terei duas assinaturas diferentes? E se descobrirem, compararem?

Um amigo chega meio bravo e apressado, dizendo que ele mesmo tinha conseguido o cpf novo, depois de pegar uma fila. Eu ainda tinha que apresentar a ficha. Estava atrasada.

As pessoas estavam impacientes, não queriam ficar me esperando, enquanto eu hesitava sobre essas novas informações que apareciam a meu respeito.