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DIA OITO DE JULHO

de 1981 eu nasci. Mas fui saber disso muitos anos depois. Minha mãe me mostrou o documento da maternidade com a data. Até então, meu aniversário era 9 de julho.

Como assim? Eu nasci no dia 8. Mas fui registrada com outra data de nascimento. Em todos os meus documentos consta o dia 9.

Durante muito tempo, deixei essa historinha em segredo. Mantive o dia 9 para comemorar. Poucas pessoas mais próximas sabiam do dia 8 e temia que elas revelassem a verdade para todo mundo… isso porque eu preferia o dia 9 ao 8. Achava numericamente mais simpático.

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Uma vez fizeram meu mapa astral e nem me dei conta que informei a data errada! Deveria ter dito dia 8 mas automaticamente disse: dia 9/7/81. Um mapa com um dia de diferença não teria um resultado condizente com a realidade. Estaria mentindo para mim.

Aí fui me dando conta que faz diferença um dia ou outro. Os dois dias tem seu valor e significado, à sua maneira. Não existem separadamente. Cabe a mim conciliá-las, me alegrar e viver com elas.

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TÃO LOGO CHEGAMOS NA CASA DE PARTO [relato de parto, 3/3]

a parteira fez o exame de toque e surpresa: dilatação total! inacreditável, eu achava. Mas já? Eu queria entrar na banheira, cantar músicas, até dormir entre uma contração e outra, como tantas outras mulheres contam que fizeram. Que nada! Tudo o que eu tinha que fazer era pressão a cada contração. 

Imagine, o Marco nem tinha descarregado ainda a mala do carro. Quando ele volta já escuta a parteira chamando o resto da equipe: – Vem gente, vai nascer agora!

Escolhi ficar de quatro, nas contrações arqueava as costas (uma postura da ioga, eita como foram boas aquelas aulas). Deu sede, me trouxeram água, que eu tomava de canudinho. Ainda bem que logo de cara a parteira percebeu que não precisava de cardiotoco e me tirou aquela coisa da barriga que me poderia tirar a concentração.

Foram talvez quatro contrações, entre elas pude colocar a mão na região do períneo e sentir a cabeça do bebê prestes a sair. Segurava fortíssimo as mãos do Marco e ali eu realmente senti o que chamam de círculo de fogo. Eu gritava muito, com todas as minhas forças, dizia ao Marco: – tá queimando! Sentia também todo o corpo do bebê querendo sair, as mãos e os pés se mexendo ainda lá dentro, algo sem igual.

Entre uma contração e outra olhei pro lado e vi aqueles instrumentos cirúrgicos, me bateu o medo de as parteiras me fazerem uma episiotomia; gritei: — o que vocês vão fazer comigo?! Elas: — nada, é só fazer força, vai! Marco foi do outro lado ver o bebê nascer. Tão logo saiu, apenas apoiaram-no e  colocaram abaixo de mim, deitado na cama. Era uma coisa linda, de olhos bem grandes, braços abertos, suspirando e choramingando calminho, sob o sol amarelo que entrava pela janela.

Depois de olhar nos olhos daquela coisinha linda e pequena, que viveu dentro de mim até aquele momento, olhei pra baixo e vi: — Marco, é um menino!

Peguei-o nos braços, deitei na cama,  pequenino, molhado, com sangue. Fiz esse movimento com cuidado, pois o cordão umbilical era curto. Com o cordão já branco e vazio (isto é, depois que todo o sangue passou da placenta para o corpinho do bebê), o Marco fez o corte. Abraçava-o, aproximei-o do seio para tentar mamar. Não tinha leite ainda, nem colostro, ele não sugou tanto, mesmo assim foi um momento importante, a parteira instruiu como dar de mamar. A placenta saiu logo depois. Pudemos ver aquela outra metade do bebê, que o alimentou aquele tempo todo. Perdi bastante sangue, disseram as parteiras, mas não tive feridas grandes, somente um cortezinho perto do canal da uretra, coisa que não precisou de pontos… ufa! Algo que ajudou muito nisso foram as massagens no períneo, feitas  a partir da 34a semana da gestação. Altamente recomendável.

Assim Francisco nasceu — 14 de agosto de 2013, às 9h42 da manhã, com 2,5kg e 46 cm, depois de um trabalho de parto rápido e surpreendente! Foi lindo!

único registro fotográfico do parto; uma mãe muito feliz, um pai chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez

único registro fotográfico do parto: uma mãe muito feliz, um pai fotografando chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez

Mas todos esses dados — hora, peso, altura — só soubemos depois. Isso porque todas saíram da sala, somente nós três ficamos lá, nos conhecendo: uma hora juntos, a sós, Marco, Francisco e eu. Aos poucos a equipe voltou. Subi pro quarto, estava tremendo, morrendo de frio. Me enchi de roupas e deitei. Soube também que o Francisco estava com a temperatura corporal baixa, mas de resto estava tudo bem; apgar 9/10/10 e tudo em ordem.

O resto do dia dormimos muito, ele começou a mamar (falar sobre a amamentação rende longos textos!) e recebemos as primeiras visitas da família. Ficamos na casa de parto de quarta até sábado, quando voltamos pra casa.

*

Contando essa história a um amigo, ele logo perguntou: — você enfrentaria tudo isso tudo de novo, toda aquela dor? — É claro que sim! Não mudaria nada nessa história, nem mesmo se eu pudesse!

Entre a montanha russa, a escalada de uma montanha ou a maratona de que falavam, com que imagem fiquei da minha experiência? Pensei muito e ainda não sei dizer. É um pouco de tudo isso, e ao mesmo tempo diferente, que foge a qualquer comparação. Só sei que foi algo surpreendente, pela relativa rapidez (eu achava que iria durar horas e horas, ou até mais de um dia! menos de dez minutos depois de termos chegado na casa de parto, Francisco nasceu). Foi uma experiência que me deu muita força e coragem para viver todo o resto, ser mãe, acompanhar junto com o Marco o crescimento do Francisco. Algo, sobretudo, construído juntos, com muito amor e uma enorme felicidade de ter dado ao nosso filho um nascimento que respeitou o seu tempo, que respeitou o meu corpo e o seu corpo, os meus desejos e instintos. Que esse respeito e esse amor sejam o combustível, a luz e o calor para a nossa vida juntos, para a vida toda do Francisco.

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Tantos clichês rodeiam a mulher grávida. Assim como há uma imagem arquetípica da mulher que oprime as mulheres reais, existe a mulher grávida arquetípica: aquela mulherzinha fragilizada com as mãos nas ancas e de pernas abertas, acima do peso, comendo tudo o que vê pela frente, com desejos de comidas estranhas, sob o poder de hormônios incontroláveis, correndo muitos riscos, com problemas de saúde aqui e ali. Sempre me percebi muito frágil: já fraturei tantos ossos, tive tantas alergias e problemas respiratórios, não consigo nem correr até a esquina. Mesmo antes de engravidar, tinha aqueles medos clássicos da gravidez: medo de hemorróidas, das varizes estourarem… enfim, medo de não dar conta. E não é que nada disso me aconteceu? Viajei, caminhei, subi escadarias, enfrentei frio e calor, fiz tudo o que meu corpo permitiu.

No começo da gravidez, li um texto da Ana Cristina Duarte que me tocou muito. Muito bem escrito, com uma postura aberta e sincera, mostrava a realidade de tantos nascimentos, controlados pelo relógio, pelos custos, pela manipulação e submissão do corpo da mulher. Disse a mim mesma: — não quero isso para mim, nem para o bebê.

Meses depois, consegui o que desejava; deixei medos e mitos de lado, disse muitos “nãos”, enfrentei médicos que me desacreditavam, fui contra o que pensava tanta gente ao redor, tomamos o Marco e eu a responsabilidade para nós e superamos uma história que infelizmente ainda se repete em tantas partes do mundo.

Nesse percurso de leituras e investigações, de pequenas lutas a cada dia, aprendi muito sobre mim mesma. Sou forte, posso —  bem aquela imagem da operária mostrando o muque e dizendo com o olhar implacável: we can do it! Descobri uma força que todas temos dentro de nós mas que muitas vezes vive calada. É essa coisa tão linda que eu desejo a todas as grávidas, a todos os bebês.

Não quero nunca esquecer a carinha do Francisco da primeira vez que o vi, seus olhinhos, o cheiro, o amor que a cada dia só cresce.
agradeço a  Jamila e Gabryelle; mesmo à distância, e de maneira bem sutil, elas me deram pequenas pistas que tive prazer em trilhar; obrigada a elas e a todas as pessoas com quem cruzamos nesses caminhos