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A MATERNIDADE E O ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA, DE LAURA GUTMAN

é outro dos livros interessantes que descobri durante a gravidez. Estava lendo um relato de amamentação e lá encontrei a referência a ele. Fui atrás, encomendei, comecei logo a ler. Depois disso, em vários blogs, sites, relatos que eu acompanhava, via a mesma indicação de leitura.

Laura Gutman é uma best-seller. Tem um instituto em Buenos Aires, onde orienta famílias; muitos livros publicados; dá palestras, entrevistas. Em razão do sucesso de A martenidade…, ano passado, dois outros livros seus ganharam tradução para o português.

O livro parte de uma ideia muito elementar: a de que mãe e bebê vivem, nos primeiros momentos, uma relação fusional. O bebê vive no interior do corpo de sua mãe, durante a gestação. Mas, mesmo ao nascer, separado daquele corpo, a fusão ainda se mantém — falar de mãe ou de bebê é falar dos dois ao mesmo tempo.

Essa dimensão fusional é tratada em diversos escritos. Até mesmo em Shantala: a massagem conduz mãe e bebê a se descobrirem.

O bebê tem a capacidade de revelar à mãe sua sombra, ou seja, tudo aquilo que ela rejeita ou renega a respeito de si mesma. O pós-parto seria o momento-chave, durante o qual a mãe entra em contato com sentimentos contraditórios, inesperados.

Cabe à mãe colher a oportunidade de encontrar com sua própria sombra. Mas como a sombra dá medo — é obscura, misteriosa, pesada — muitas mães evitam esse processo de autodescoberta. Deixam a cargo da criança manifestar a sombra, das maneiras mais diversas: problemas na amamentação, doenças, desvios de comportamento, por aí vai… Em suma, qualquer interferência na relação fusional vai se manifestar, muito provavelmente, por meio do bebê.

Por esse ponto de vista, a autora comenta uma série de situações da maternidade: a gravidez, o parto, o papel do pai, a amamentação, a vida sexual, o sono, o nascimento de um segundo filho, a escola, o retorno à vida profissional…

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Outro ponto que me chamou muito a atenção durante a leitura: o bebê que temos nos braços se vincula ao bebê que também somos. Isso me encantou: acompanhar o Francisco me faz rever e renovar a criança que sou eu, que eu fui. Minha descoberta do papel de mãe envolve questionar como eu vivi minha infância, relembrar situações, buscar novos meios de me relacionar com o mundo.

Gutman também trata das doenças como manifestação da sombra — como uma mensagem que enviamos a nós mesmos. A mudança de alimentação pela qual estou passando faz parte desse meu esforço em entender melhor meu corpo e minhas necessidades (escrevi sobre isso aqui e aqui). Já me perguntei se a água que bebia em exagero não era algo que eu escondia de mim mesma.

Minha intenção neste post não é resumir o livro, até porque um post não dá conta disso, dada a variedade de temas que ela aborda. Escrevendo como fiz nos parágrafos acima, o livro pode parecer confuso, hermético. E não é. A escrita de Gutman é bem simples, sensível. Ela ilustra suas ideias com casos de mães, pais e filhos que ela atendeu em sua longa experiência como psicóloga.

O livro se dirige não somente a gestantes, mas a mães e pais de bebês, crianças pequenas, até mesmo adolescentes. Desde a gravidez, já o reli em vários momentos, discutindo sempre com o Marco.

Para finalizar, aponto dois aspectos que faltam ao livro. Primeiro: sinto falta de relatos autobiográficos. Gutman é mãe: como ela viveu sua autodescoberta? Ela se limita a descrever seus partos. Por que não fala mais sobre si? Segundo: em poucos momentos ela traz a referência às ideias que apresenta: Jung e Rüdiger Dahlke são alguns deles. Winicott parece ser um autor que a inspira mas ela não o cita. De qualquer maneira, o tema me interessa tanto que estou começando a ir atrás dessas leituras relacionadas. Assunto para outros posts…

PARTO ATIVO, DE JANET BALASKAS

foi uma leitura muito importante durante a minha gestação. Ajudou a entender o mecanismo do parto, a estrutura do corpo feminino e os movimentos que eu poderia praticar como preparação para a passagem do bebê.

Balaskas parte de uma premissa muito simples: a mulher, durante o trabalho de parto, deve sentir-se livre, movimentar o corpo como sentir melhor.

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A imagem padrão de um parto é a mulher deitada, sofrendo e rodeada de pessoas ajudando. Pois justamente essa é a postura menos adequada para a saída do bebê. Pensei numa comparação: tente beber um copo de água deitado de lado. É mais fácil beber quando se levanta, ao menos com a cabeça mais elevada, não? Isso porque a água precisa descer pela garganta…

Por experiência própria, os momentos mais difíceis do parto foram as contrações que senti deitada. Pensava que deveria dormir, mas o intervalo entre as contrações era bem curto; impossível dormir nesse caso. Quando me levantei, me mexi, caminhei pela casa, abracei e beijei o Marco, gritei, me coloquei de cócoras — enfim, quando estava ativa — tudo foi diferente; mais solto e, quem sabe até por isso mesmo, mais rápido.

Devo essa liberdade às leituras que fiz, aos vídeos de parto e às aulas de ioga. Caso contrário talvez estivesse presa à imagem da mulher deitada que espera o filho nascer.

O livro traz inúmeras fotos e imagens, tudo muito explicado, de maneira bem simples. Lembro que folheava-o junto com o Marco, no fim da gravidez, imaginando feliz como seria o parto.

Tenho boas recordações dessa leitura e só posso sentir-me muito grata que ele tenha feito parte da minha experiência. Resta, por isso, recomendá-lo sempre que posso!

O QUE LER DURANTE A GRAVIDEZ?

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Fiquei pensando nessa pergunta logo ao receber a notícia de que uma amiga está grávida. Dei os parabéns e já em seguida passei umas dicas de livro — e olha que ela nem pediu, imagine se tivesse pedido… Os dois primeiros livros que indiquei a ela foram:

  • Parto ativo, de Janet Balaskas
  • A maternidade e o encontro com a própria sombra, de Laura Gutman

Assim, a pessoa teria valiosas informações sobre a parte corporal da gestação, com exercícios e posições para o parto, com o primeiro livro; e equilibraria com uma análise mais psicológica de seu futuro papel de mãe, com o segundo — ao meu ver, um complementa o outro. Ambos são livros para se ler mais de uma vez, para ter sempre à mão quando bate uma dúvida. Tendo mais tempo e interesse, é bom ir atrás de:

  • Shantala e Birth without violence [Pour une naissance sans violence], de Frédérick Leboyer
  • Quando o corpo consente [À corps consentant], de Marie Bertherat e Thérèse Bertherat
  • O poder do discurso materno, de Laura Gutman

Sobre cada um deles, pretendo escrever um post futuramente. E a lista poderia se estender mais… Eu fiz para mim uma lista mais longa que essa para ler durante a gravidez, que não cumpri. São leituras em curso ou que ficarão mais para frente, seguramente:

  • Bésame mucho, de Carlos González
  • Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pínkola Estés
  • Um amor conquistado: o mito do amor materno, de Elisabeth Badinter
  • Le bébé est un mammifère, de Michel Odent

Quem se depara com os títulos acima pode se perguntar: — e meu orçamento pra livros? não dou conta de comprá-los todos!

Uma ideia é pedir alguns dos livros no chá de bebê; alguns deles eu ganhei de amigos. Além disso, pesquisando na internet, é possível encontrar bons trechos dos livros, que ativistas muito atenciosas traduzem e  compartilham — e até mesmo os livros integrais em pdf, sim! É questão de ir farejando… Com o tempo, a mãe leitora vai perceber que um livro leva a outro, que um autor cita outros e, quando menos percebe, estará criando a sua própria biblioteca temática!

OS AGENTES DO DESTINO

não são os personagens principais do filme, mas um grupo que os observa, que os controla: é graças a eles que tudo vai acontecer como previsto, como escrito no livro.

No entanto, esses personagens querem outra coisa, mesmo que leve tempo, mesmo que leve o filme todo, que o filme acabe justamente depois de conseguirem convencer que a história deles vale a pena.

– VAMOS, VISCONDE

Bote aí seis pontos de interrogação – insistiu a boneca.

Depois de ler Memórias da Emília, ficam uns enormes pontos de interrogação frente a curiosidade sem igual, as tiradas geniais, as boas ideias e os xingamentos que ela solta a torto e a direito – principalmente aqueles contra a tia Nastácia, quem costurou a boneca de pano.

CHEGOU UM DIA

de arrumar tudo: então abrimos os armários, separamos livros, trocamos de lugar algumas coisas na casa. Na bagunça, os vinis iam sozinhos para o toca-discos, a música começava – um susto! Tudo bem, os discos de vinil são assim mesmo, sabem tocar sozinhos. Fui lavar as mãos e a torneira era ao mesmo tempo uma cafeteira e uma máquina de costura. Só era preciso ter cuidado para não levar uma agulhada.

Bem que essa poderia ser a casa de Zazie, pensei eu.
Ou o apartamento de “Vinil verde“.

ERA UMA VEZ

uma menina que escrevia; ela passava o dia todo pensando nas histórias que ia contar aos amigos: os passeios, os sonhos que ela teve com eles, com personagens de outras histórias, com diretores dos filmes que iam ver no cinema, matando aula; juntava desenhos que encontrava por aí, fotos e cartões postais perdidos no meio dos livros que ela espanava nas estantes; salvava imagens de sites perdidos na internet.

Ela tinha um jeito de escrever que não existe mais – diz um leitor, que sabe de cor um texto dessa menina, que ela mesma desconhece; texto lindo esse, que ele não consegue mais encontrar em lugar nenhum.