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“NÃO LEIA TANTO!”

eis a frase que ouvi algumas vezes durante a gravidez, de pessoas próximas, até mesmo durante a visita à maternidade. Como assim?! Não devo me informar sobre o momento que estou vivendo?

O argumento é que a informação pode atrapalhar. A pessoa ficaria angustiada em frente a muitas informações, com medo e receios.

Pois eu defendo justamente o contrário disso: conhecimento é poder! E poder é tudo o que uma gestante precisa para conduzir bem a sua experiência. Para ser protagonista de sua história, sem deixar nas mãos de outros aquilo que é dela e de seu bebê. Para ela dar espaço aos seus instintos, é preciso quebrar mitos.

A gestação, no meu caso, foi física, corporal, mas muito psicológica também. Meu corpo mudou, mas sobretudo mudei como pessoa. Grande parte dessa preparação aconteceu graças aos inúmeros livros e vídeos que pesquisei, todos os dias. Eu me emocionava sempre, chorando vendo vídeos e lendo relatos de partos, que já não sabia o que tocaria outras pessoas (do lado de fora da maternidade) e o que interessava somente às gestantes e mães.

Um belo dia, contava toda animada a um amigo sobre os vídeos de parto que estava assistindo, o quanto aquilo estava sendo esclarecedor pra mim. Como eu poderia me preparar para o parto sem saber como ele funciona?

Meu amigo reagiu um tanto cético. Foi uma conversa muito curta, por chat. Nos despedimos, era tarde, precisava dormir. Mas aquilo ficou na minha cabeça, martelando, martelando. Logo que acordei, escrevi um email a ele.

Esse email me foi muito útil. É bom quando a gente é levado a defender-se, apresentar seus argumentos. Convenci meu amigo do quanto era importante o que eu fazia. E, além de tudo, fiquei eu mesma mais determinada a prosseguir nas minhas investigações e pesquisas. Por conta disso, reproduzo esse email, logo abaixo. Espero que ele possa dar forças, inspirar e convencer mais e mais pessoas.

nao_leia_tanto_

Olá,
 
Ontem, precisava dormir e nossa conversa talvez tenha sido meio rápida e entrecortada, então por isso eu só queria tentar me fazer entender melhor sobre o que eu disse e você disse; como amigo, acho que cabe isso.
 
Não estou só vendo vídeos de parto, mas também lendo blogs, livros, conversando com pessoas pelo facebook e fazendo curso de ioga para gestantes. Talvez se eu estivesse em São Paulo, participaria de algum grupo de gestantes e doulas, onde ouviria relatos.  A internet é minha maneira de encontrar algum apoio, tão necessário nesse momento.
 
Já perguntei a algumas pessoas próximas sobre seus partos. Tem aquelas que simplesmente se recusam a contar, outras que contam por cima, outras que nem lembram mais. É o direito de cada um. São todas pessoas no seu direito de se preservar, de não contar, de esquecer. Mas se eu quero saber, tenho que procurar minhas fontes, ir atrás.
 
Você disse que “se fosse médico entenderia que se deve ver vídeos de parto”. Quem conduz um parto não é nem médico, nem parteira, nem doula, nem enfermeira. É a mãe e o bebê, mais ninguém: ela dilata, ele passa.
Vi isso ontem: o que significa obstetra? “aquele que observa”. Grandes problemas e tensões de parto acontecem porque a mãe não toma conhecimento de sua força, tem medo, encara o evento como um acontecimento médico. Relega a sua responsabilidade a essa autoridade — não por vontade própria, mas porque não foi preparada, informada, não recebeu o apoio que deveria. Uma mulher sem preparo não entende que ela pode se movimentar, fazer o que lhe der vontade, durante o trabalho de parto. 
 
Se tudo der certo não vamos ter o bebê no hospital, mas numa casa de parto. E isso muda muito, eu mesma antes não sabia o quanto. No mundo inteiro, abusam de cesáreas sem necessidade. 
 
Quero me munir de calma e força para esse novo momento da vida, que já começou. Não é só o meu racional que busco trabalhar. 
 
A gravidez muda muito uma pessoa, ela querendo ou não. Aceitar e compreender a linguagem do corpo, as náuseas, a falta de força, o ritmo que muda. Entender tudo isso depende de uma abertura, de uma falta de medo. Ou de saber encarar os medos. Mas circulam muitos outros medos, que são superficiais (medo da dor, da vagina alargar, do sexo com o marido depois do nascimento do bebê) frente ao que acontece numa pessoa.
 
Sei que não serei (ninguém é) uma mãe perfeita, nem quero ser. Quero poder me mostrar ao bebê como alguém que não é perfeito, mas que o ama. Quero aprender com esse momento. E me sinto muito feliz dos passos que estou dando. Me surpreendo todo dia com minhas descobertas — que não são somente da ordem objetiva. Estou descobrindo muito de mim mesma. Isso é o mais importante.
 
Beijos,
 
Ana Amelia

RECEBIA UM EMAIL

só um, no sonho; destacava-se dentre os já lidos. Abria: fora o oi e o nome de quem me mandou, uma frase só: “ah, você só poderia ser você mesmo!” Ao ler essa mensagem, ria um pouco, desconcertada. Fechava e abria o email, como se o conteúdo pudesse mudar – não mudava. Eu era eu.

Antes disso eu me perdia em vários corredores de uma feira de universidades, um lugar antigo, com cores creme, alguns corredores mais novos, outros parecendo um lugar no Mediterrâneo. Esse lugar ficava num terreno de subidas e descidas, casinhas de pedra, chão de pedra. Depois de o carro onde eu estava quebrar a pouca distância dali, de me perder do grupo que estava comigo, eu conversava com uma representante do estande do Japão. Poderíamos ter um acordo, eu era favorável. Dizia para ela que as políticas diplomáticas brasileiras são baseadas na reciprocidade.