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O PROJETO ROSA E AZUL

ou, em inglês, “The Pink and Blue Project” é uma série de fotografias da sul-coreana JeongMe Yoon. Seu trabalho ilustra bem a separação entre cores e gêneros — e como ela está relacionada a um consumo desenfreado, a uma acumulação intensa de objetos. Já comecei a falar sobre isso no post anterior.

[clique nas imagens para vê-las no site da fotógrafa, em tamanho maior]

Ela relata que o projeto partiu de sua filha, que escolhia somente roupas e brinquedos rosa. Começou a fotografar somente meninas, quando se deu conta de que seu filho, assim como tantos outros meninos, possuem brinquedos, utensílios e roupas que seguem escalas de azul, das mais escuras às mais claras.

Olhar a série de fotos, que começou em 2005 e continua aberta, dá uma certa tontura. Há crianças de todas as idades, bebês muito pequenos para terem um gosto ou autonomia para escolherem simplesmente tudo de uma só cor para si mesmos. Vemos até uma jovem garota, já meio grandinha mas que não quer nada para si que não seja rosa — e assim dá o sinal de que esses papéis fixos entre o masculino e o feminino não se limitam somente ao período da infância. Crescemos em torno de determinados limites para o que se espera de uma menina, uma mulher, e um menino, um homem. Muitas das meninas estão vestidas de princesas, como se pudéssemos ter tantas delas na vida real. Os meninos mostram seus aparelhos esportivos, de ciências, seus animais e mapas, como caçadores, exploradores ou cientistas.

Além disso, as crianças são todas fotografadas sozinhas, em seus quartos, rodeadas por seus objetos. Não porque estamos vendo filhos únicos, não é o caso. A questão é que cada um daqueles indivíduos em formação possuem um quarto para si, um espaço de construção de si mesmos. Mas eles parecem tão pequeninos face ao amontoado de aparatos, limitados pelas paredes do cômodo; quase não se vê janelas, talvez nenhuma porta indique a saída.  Estáticas, sem movimento, as crianças estão longe da natureza, cercadas: tudo ao redor delas é comprado, fabricado, confeccionado, direcionado para quem ela deve ser. As fotos ganham um ar de peça publicitária. Os objetos estão expostos como numa vitrine de loja, dentro da qual a criança está mais para um manequim ou um boneco.

Como se vê no caso bebezinho acima, todo rodeado de azul, ele nem tem a possibilidade de escolher algo que fuja a essa cor. De que maneira ele poderá libertar-se dessa imposição?

Uma amostra está nesse outro par de fotos: duas irmãs, fotografadas num espaço de tempo de três anos. Em 2006, bebês; em 2009, já grandinhas. O volume de objetos aumentou consideravelmente. A tonalidade de cores não: cada peça pertence a uma escala do lilás ao rosa. Ao que tudo indica, esse seria o ponto de partida para uma continuação da primeira série: The Pink Project II.

Pode-se argumentar: ah, mas elas gostam de rosa! Claro, admito que as crianças desenvolvam seu gosto pessoal. Mas de que maneira elas puderam experimentar e descobrir coisas diversas daquilo que lhes foi dado lá no comecinho, quando eram pequenas? Será que esse gosto pelo rosa não está respondendo a uma expectativa que pais e adultos fazem dessas meninas?

JeongMe Yoon começou um outro projeto em paralelo, “The Color Project”, que conta, segundo seu site pessoal, com apenas duas fotos até o momento: uma menina e sua fascinação pelo amarelo; um menino em seu quarto todo vermelho, incluindo a decoração da parede e cortinas. Uau, pode-se pensar: trata-se de duas crianças que conseguem fugir à dualidade rosa-azul, escolhendo para si objetos não necessariamente “masculinos” ou “femininos”.

Pode até ser. Mas continua impressionando a acumulação intensa, o consumo aparentemente sem limites. No caso da menina, boa parte daquilo que ela exibe está relacionado ao Bob Esponja, cuja principal cor é amarelo. Então, qual seria a seria o mecanismo: ela gosta de amarelo porque gosta do Bob Esponja ou gosta do Bob Esponja porque ele é amarelo? Arrisco dizer, sabendo que posso estar enganada, que o gosto partiu do personagem de desenho animado. De maneira muito patente, é construída uma relação direta entre a cor e o personagem. E, outra hipótese: a menina quer adquirir alguns dos atributos do Bob, um pouco daquele jeito espalhafatoso e nonsense. Ela não terá dificuldade em encontrar mais e mais brinquedos, livros e toda uma série de cacarecos licenciados com o Bob — enquanto continue na moda. Mesmo outros personagens de desenhos animados tem a cor amarela: Piu-piu, Pokémon, os Simpsons, aqueles inúmeros serzinhos do filme Despicable me… Já no caso do menino, pode-se supor que sua paixão, sua mania, esteja relacionada ao universo dos bombeiros, como se vê na pintura da parede — profissão frequentemente associada ao gênero masculino.

Pronto, acredito que não preciso ir muito mais longe nessa reflexão. Eu poderia me estender ainda bastante sobre essas fotografias. A gente se preocupa em não dar ao Francisco essas escolhas limitadas, que o mercado ou a prateleira das lojas define. Que ele não precise demonstrar seus gostos, desejos e habilidades somente em função do que se espera de um menino. Que a sua identidade, sua personalidade e sua felicidade não dependam de um quarto atulhado de roupas e brinquedos.

Finalizo com um exemplo do que fizemos já na prática. Francisco ainda não tem um quarto para si, mas abrimos um cantinho para ele começar a engatinhar e brincar. Escolhemos um tapete que não remetesse a algo concreto (havia tapetes lindíssimos com mapas, selva, desenho de ruas, na seção infantil) ou que tivesse uma cor dominante. Esse tapete com estampas de botões nos pareceu abstrato o suficiente. Tem várias cores bonitas e bem marcantes. Ele gosta de passar a mão nos limites entre o branco e o colorido. A estampa lembra até aquele jogo com círculos e uma roleta, em que se coloca mãos e pés na cor que a roleta indica (não lembro o nome desse jogo, quem souber me diga!). E, mesmo parecendo um brinquedo, esse tapete não está à venda na seção para crianças… Em cima dele, colocamos uma coberta laranja e uma colcha de crochê que fiz durante a gravidez (farei um post sobre ela em breve), almofadas, brinquedos, bolinhas de meia.

tastrup-teppich-kurzflor__0185525_PE337535_S4Ainda volto a falar sobre o assunto no próximo post (e quem sabe ainda depois do próximo!). Por ora, fica o meu desejo que as crianças possam ter uma infância bem colorida — e não monocromática.

PASSEANDO COM A HOLGA

as coisas que eu já conheço na cidade vão tomando uma outra forma, o céu ganha outras cores, como se fosse num sonho, como se fossem um desenho no caderno.

HORA AZUL

fica no espaço que separa o dia da noite.

HÁ IDIOMAS

em que a palavra “outono” não existe – explicava um senhor que dominava muitas e muitas línguas diferentes. Sem a palavra outono, as folhas das árvores não mudam de cor, não caem. E também chega a primavera – continua ele. Só se vive os dois grandes momentos opostos do ano: o verão e o inverno.

Por outro lado, há palavras escondidas para momentos do dia e cores do céu que não conseguimos enxergar.

O SOL NASCIA

num sonho desta semana. No meio de uma paisagem marrom escura, surgia o sol laranja-amarelo. Rápido, ao lado, estava a lua, muito grande, com os seus desenhos na superfície. Só assim era possível distinguir o sol da lua. Porque os dois estavam com a luz muito parecida. Até dava pra desconfiar se o que acontecia não era o contrário – se não era o sol que refletia a luz laranja-amarela da lua.

POR QUE O BLOCO

amarelo? A explicação simples: porque aparecia no seriado que mais gosto, Flight of the conchords. Nele Bret e Jemaine compunham as músicas; Murray fazia as atas de reunião; e, quem sabe, o musical que encerra a série. Independente do que eu poderia escrever nos blocos amarelos, precisava deles também.

A CANETINHA MARROM

não é marrom, como dito antes; fiquei pensando qual seria o nome mais interessante para ela, duvidei, fui consultar o dicionário de cores e lá encontrei mesmo: é petróleo.

O desenho é inspirado na capa do disco Low, do Bowie.