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VOCÊ QUER UM PARTO NORMAL?

deparei-me com essa pergunta logo no começo da gravidez. Minha resposta: quero. Já no relato de parto, falei de um texto da Ana Cristina Duarte, que colocava a maior dificuldade: a cultura da cesárea, predominante no sistema privado de saúde. Para quem se interessa pelo tema, recomendo ler todas as suas notas, publicadas no facebook. É um enorme apanhado de informação correta, embasada, bem escrita.

Muito importante: por mais que sejamos capazes de parir, a gravidez não é uma experiência obrigatória para toda e qualquer mulher. Há mulheres que não querem ser mães. Há mulheres que tentam e não conseguem. Há mulheres que engravidam de surpresa e não querem ter o bebê. Há mulheres que no imprevisto recebem o bebê com toda a felicidade do mundo. Há gente que se realiza como pai e mãe adotando uma criança. Da mesma forma, parir não é uma experiência absoluta e necessária para toda mulher.

Dentro de mim, eu sentia o desejo de parir. Eu quero viver isso! Não quero ser impedida de viver esse momento, de presenciar o nascimento de uma pessoa, meu/minha filhx.

ovonovo_-38O que eu fiz então? Li muito, vários livros, sites, blogs, pesquisei de todo jeito. Todo dia aprendia algo novo. Entrei em contato com pessoas que poderiam me ajudar, tirar dúvidas. Descobri que era possível meditar sobre a gravidez. Que sentir-me vulnerável poderia me dar uma força enorme. Que o parto é uma experiência da vida sexual feminina.

Mas, sobretudo, aprendi que há muitos mitos que cercam as indicações de cesárea: cordão enrolado no pescoço, falta de dilatação, bebê grande demais, bebê sentado, cesárea prévia, gravidez de gêmeos… Acompanhei e ouvi relatos de muitas mulheres que foram submetidas a cesárea por inúmeras razões, poucas delas realmente legítimas. Cesáreas salvam vidas? Sim, quando existe real indicação para isso.

Eu tive um bom pré-natal. A ginecologista compreendeu minhas escolhas. Inscrevi-me na casa de parto. O Francisco nasceu com 39 semanas, isto é, não precisei enfrentar o argumento de uma gravidez que estava “durando demais” (há gestações que duram 43 semanas, mas muitas mulheres não resistem ao apelo dos ginecologistas para dar um termo à gravidez antes disso, sob a alegação de sofrimento fetal). Comentava-se que o Francisco era pequeno demais. Nasceu com 2,5kg, super saudável. Consegui driblar o cerco de uma ginecologista de plantão (a minha estava de férias nas últimas semanas de gravidez), que quis me submeter a controles desnecessários (cardiotoco e ultrassom além do que a ginecologista havia prescrito, sem qualquer necessidade). Felizmente, vivi a experiência que quis para mim e para o Francisco. Até por isso, sinto-me como que num dever de compartilhar o que vivo, já que aprendi tanto com as experiências de outras pessoas.

Algumas mulheres, depois de uma primeira cesárea, fazem questão de viver um parto normal nas gestações seguintes. Como já falei acima, não é o caso de todas as mulheres. Mas cabe a qualquer uma delas a autonomia sobre seu próprio corpo e seus direitos reprodutivos. Relembremos que a violência obstétrica é uma dura realidade, que pode acontecer de tantas formas.

Poucos dias atrás, 1° de abril, Adelir Carmen Lemos de Goés, grávida e em trabalho de parto, foi levada à força para ser submetida a uma cesárea, contra a sua vontade. O caso está em repercussão: há posts no femmaterna, no cientista que virou mãe, em páginas no facebook como não me obrigue a fazer cesárea.

Por que o caso é tão importante? Porque privaram a mulher o direito de decidir sobre a via de parto. Impediram que o marido pudesse acompanhá-la. Argumentaram com informações sem fundamento (bebê sentado, gravidez de 42 semanas). Como veiculado pelo grupo Artemis, condicionar o direito da gestante de escolher o local de parto à eventual determinação do poder público, na prática, impede o exercício desses direitos da mulher e abrem caminho para uma interpretação equivocada de que qualquer nascimento dependeria da aprovação do Estado. A imposição da cirurgia cesariana se configura ainda VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA, a violência praticada contra a mulher no momento do parto.

Adelir, assim como eu, queria um parto normal. Ela tinha condições de parir; chegou aos 9 cm de dilatação, inclusive. Mas lhe foi tirado esse direito.

Entristeci-me muito com a experiência de Adelir, em sua terceira cesárea, indesejada. Acompanhando as notícias, os posts e a movimentação de ativistas em torno do caso, sinto alguma força: de que lutar, mesmo em pequena escala, pode valer a pena, pode mudar a nossa própria vida e de quem está ao nosso redor. De que sentir esperança é uma maneira de viver melhor cada dia.