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OS ÚLTIMOS MESES DE GESTAÇÃO

foram tranquilos. A barriga foi aumentando de tamanho, pontuda. Por isso muitos dos palpites que circulavam entre nós era de que ali dentro tinha um menino. Além disso, as pessoas começaram a perguntar: — E aí, quando nasce? Reagia com muita calma. Há aquela pressão das 40 semanas, que não passam de uma estimativa para a duração da gravidez. Bebês saudáveis nascem antes ou mesmo depois dessa data, até em 42 semanas.

Desde junho, pelo ultrassom, vimos que x bebê já estava com a cabeça para baixo. Dava chutes fortes, principalmente quando eu estava deitada. Aliás, se no segundo trimestre me mexi pra caramba, esses meses finais voltou aquela vontade de deitar e dormir.

Mas e a dificuldade para dormir confortável com o barrigão? Deitar de costas, muito difícil. De lado era melhor. Mesmo assim, era preciso mudar de lado, esquerdo ou direito, frequentemente. De madrugada, vinha a fome e a vontade de fazer xixi. Em suma, o sono era picado, fragmentado. Entre 3 e 5 de manhã, muitas vezes estava lá eu acordada, pensando na vida. Pensando em todas as mudanças que a chegada dx bebê estava fazendo em nossas vidas.

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Sobre mudanças, foi só nesses meses finais que começamos realmente a nos equipar. Com o mínimo necessário: um berço, seminovo, que logo depois abandonamos (o Francisco dorme conosco na cama) e uma nova cômoda para as roupas. Já tinha alguns presentes e roupas usadas de amigos. Já tinha comprado também os slings. Organizei-me e fui comprar mais algumas roupinhas que faltavam para as primeiras semanas, aproveitando uma liquidação.

As aulas de ioga acabaram quando eu estava no fim do oitavo mês. Depois disso, fazia em casa, sozinha, alguns movimentos. Lia e relia Parto ativo. Assistia mil e um vídeos de parto. Acompanhava também relatos, de todos os tipos de experiência.

Concentrei-me bastante em informações sobre parto. Se pudesse mudar algo, teria ido atrás de mais conhecimento a respeito da amamentação. Pesquisei razoavelmente, mas muita coisa aprendi nas primeiras mamadas. Repensando hoje, até teria feito algum curso de amamentação antes de parir.

Estrias bem fortes apareceram. Desde o começo da gravidez passava óleo na barriga, mesmo assim ela cresceu tanto no final que a pele não resistiu. Isso varia de mulher pra mulher; eu tenho propensão a estrias, já esperava por elas… aos poucos estão apagando. De qualquer maneira, é interessante ver as estrias como uma recordação daquele momento da minha vida.

Os pés incharam pouco, mais nos dias de calor. Acredito que tomar suplemento de magnésio tenha ajudado. Além dele, também tomava outro multivitaminas específico para gestação e pós-parto.

Por volta das 32 semanas começamos a massagem perineal, quase diariamente. Valeu muito a pena, não tive nenhuma laceração na passagem do Francisco. Recomendo a toda gestante fazer a massagem, sozinha ou com ajuda dx parceirx.

Gostava de passear. Andava a passos curtos, por causa da barriga, que ia chamando cada vez mais atenção. É um tempo para curtir, porque passa rápido e já me dá saudades: sentir as mexidas lá dentro, o corpo diferente e bonito. Ah, sim, eu me sentia bonita demais!

barrigaoArrematei os quadradinhos da colcha de crochê bem no finalzinho. E o diário, trabalhei nele até o último dia de gestante! Por coincidência, também tirei fotos da barrigona menos de 24 horas antes do nascimento do Francisco.

As parteiras já tinham avisado para colocar um plástico cobrindo o colchão, para o caso de a bolsa estourar de madrugada. Dito e feito! Era por volta de 3h da manhã quando senti um ploc! e a água escorrendo. Sobre isso, já escrevi no relato de parto

OS TRÊS DIAS NA CASA DE PARTO

foram muito bons, principalmente pelo fato de que pude me concentrar no Francisco, dormir bastante e com toda a calma começar a amamentar, afastada dos afazeres de todo dia. Ao contrário de um hospital/maternidade, nós três, Francisco, Marco e eu, dormimos juntos, na mesma cama aliás.

Como o nome já indica, estávamos em uma casa, sob a gestão de parteiras. A comida era feita ali, alguns dos vegetais vinham da horta. Fazíamos as refeições juntos, todas as mulheres que tinham parido nos últimos dias, os maridos, alguns dos filhos inclusive. Do quarto era possível escutar os choros dos outros bebês, e mesmo os gritos das mulheres em trabalho de parto. Era, por isso, um lugar de convivência, sem a privacidade e impessoalidade que predomina em um hospital, mais amplos — com mais pacientes — e com mais trocas de turno de funcionários. Lembrava sempre de um trecho do relato de parto de Laura Gutman, em seu livro A maternidade e o encontro com a própria sombra; ela, ao presenciar o parto de outra mulher, conseguiu dar andamento ao seu próprio.

No primeiro dia, logo depois do parto nós dormimos e assim que o Francisco acordou uma das parteiras veio me instruir sobre como dar de mamar. Elas se preocupavam com o peso dele, temiam que ele perdesse ainda alguns gramas. Não só por isso, mas para manter o vínculo, deixava o Francisco quase o tempo todo no seio, dando uma pausa para comer ou dormir (esqueci de levar o sling dentro da mala…) . Ofereceram um tipo de vitamina que “reforçaria” o leite: eu deveria dar uma mamadeira a ele com essa vitamina depois do leite.

— O quê? Mamadeira? Não, eu não quero dar mamadeira pro meu filho. Ele vai confundir os bicos e deixar de mamar no meu peito.

— Isso não existe, confusão de bicos é psicológico.

Confusão de bicos não é psicológico — mamadeira desestimula a amamentação, de um jeito ou de outro. Outro problema grave é o mito de que o leite materno não é suficiente para o bebê. Eu, sem querer argumentar muito, recusei. Já não era a primeira vez que eu recusava algo (é só lembrar do remédio pra dormir no começo do trabalho de parto). Também recusei gentilmente o “presentinho” que dão a todo bebê: uma chupeta, amarrada num cordãozinho com o nome dele. Arrumei uma tesoura, deixei a chupeta e levei o cordão pra casa, porque era fofinho. Mas como podem presentear algo que comprovadamente causa problemas de todo tipo na criança? Numa tacada, fomos confrontados com vários dos fatores que afetam a amamentação…

O leite desceu entre o segundo e o terceiro dia. O cocô já não era mais o mecônio escuro, mas aquela clássica pastinha amarela, uhu! sinal de que estava correndo tudo bem. A pediatra examinou-o no segundo dia — foi o único contato com um médico naqueles dias lá. No terceiro, uma enfermeira me deu muitas dicas para cuidar dos seios, que já estavam super carregados: folhas de repolho branco geladas dentro do sutiã, chá de sálvia para limpar e desinfetar naturalmente os mamilos; além de massagem, repouso e seios ao ar livre sempre que possível.

Lá o Francisco tomou banho naquele maravilhoso balde, no terceiro dia. Fiquei maravilhada! Ele parecia flutuar lá dentro… — Quero dar banho nesse balde em casa também! Logo que voltamos para casa, o Marco foi correndo comprar um balde. Banho de balde é tudo de bom.

Balanço: dentre as opções que tínhamos, a cada de parto foi a melhor de todas. Gostamos muito de podermos ficar o tempo todo juntos, num quarto só, dormindo, escutando música, recebendo as visitas. E junto também de outras mães e bebês, vivendo experiências próximas. Mas isso não quer dizer que seja perfeita. Desagrada o fato de terem recomendado mamadeira e chupeta. Coube a mim, é claro, nos defender e recusar. Mas fico pensando em quantas mães aceitam, por falta de informação, e como isso pode interferir negativamente na amamentação e em todo o vínculo entre mãe e bebê.

A questão é, independente de como ou onde é possível parir, o importante é ter-se informado muito bem, previamente, sobre os procedimentos de rotina do lugar (havíamos feito duas visitas à casa antes do parto). E, mais do que isso, ter muito firmes seus princípios. Quer realmente um parto normal? Quer realmente amamentar em livre demanda? Então informe-se e mantenha-se firme, recuse o que vai contra o que pensa e defende. O pós-parto é um momento muito delicado, em que muitas escolhas e convicções importantes podem ser deixadas de lado mais facilmente do que se imagina…

HOSPITAL OU CASA DE PARTO?

— visitar ambos os lugares foi essencial para nos decidirmos. Eu já tinha mais simpatia pela ideia da casa de parto; com uma gravidez sem qualquer risco (o que é o caso da maioria das grávidas, diga-se de passagem), poderia de cara optar por ela, mas por via das dúvidas programamos de visitar os dois locais.

O hospital oferece uma apresentação de suas instalações a cada dois meses. Era um dia de semana, terça, acho, por volta das 19h. Havia uns 200 casais, num enorme auditório. À frente, a GO chefe, o pediatra chefe, uma parteira, uma secretária. Cada um deles falava junto a uma apresentação em power point, em que predominavam as piadinhas. “Queremos causar uma boa impressão em vocês”, dizia o primeiro slide, lembro bem. Boa impressão?!

A GO chefe mostra gráficos; o hospital tem, segundo ela, baixos índices de cesárea: 30% — mas não explica, é claro, que a OMS recomenda 15% de cesáreas no máximo. Episiotomias: 30% dos partos normais. Uso de fórceps: 30%. Partos sem essas intervenções: outros 40% — mas ela não esclareceu, obviamente, o que é episiotomia. Quem não sabe também não levantou a mão para perguntar. Nem se questionou se realmente esses procedimentos são rotina ou apenas para casos extremos. Ou se há alternativas. E vamos aos próximos slides.

Num deles, fizeram outra recomendação que me desagradou muito: “Não leia tanto! Informação pode deixar as pessoas inseguras e confusas; a internet não oferece dados confiáveis”… aham. Comigo não rola esse papo.

O pediatra fala somente de um assunto: as vacinas, como elas são importantes. Cita as vacinas recomendadas, as datas em que são aplicadas. Mais nenhum outro assunto. Como assim, ele não falou nada a respeito dos cuidados com o recém-nascido? O que fazem com o bebê logo que ele nasce? Quais os procedimentos do hospital? Nada.

A secretária diz que é possível realizar um ensaio fotográfico com o recém-nascido já no hospital. Acrescenta que o casal pode escolher um cardápio especial de jantar na noite depois do parto. Fiquei pensando: — onde está o bebê durante o jantar? chorando no berçário?

Depois das apresentações, pudemos conhecer as salas de parto e os quartos de um andar do hospital, todo vazio, reservado para a visita. Também serviam canapés, sucos, frutas.

A casa de parto recebe interessados todo sábado, com visita agendada. Lá, nos receberam uma parteira e uma enfermeira. Éramos dois casais no total. Visitamos todas as instalações (e não somente um andar…), salas de parto, quartos livres, cozinha, sala de jantar. Conversamos sentados numa mesa, tirando dúvidas, resolvendo curiosidades. Vocês cortam o cordão umbilical em que momento? O que vocês fazem com a placenta? De que maneira aplicam vitamina K no bebê? Que recursos existem para aliviar as dores? Vocês lavam as nossas roupas? Posso fazer acupuntura nas

Elas não tinham gráficos para mostrar a incidência de episiotomias ou cesáreas. Mas disseram que lá acontecem em torno de 200 partos por ano e nesse período 4 mulheres foram levadas ao hospital porque não conseguiam dar andamento ao parto ali — uma porcentagem razoavelmente baixa.

Em resumo: no hospital, uma equipe grande falando a um auditório vasto, sobre assuntos amenos (fotos, jantar, piadinhas, regados a suco de fruta); mas pouco espaço para as questões importantes do parto. A ideia que paira, ao meu ver, é de delegar tudo aos médicos, às autoridades — algo como: “para que é importante saber o que significa episiotomia? melhor nos deliciarmos com um jantar especial e tirarmos belas fotos do bebê… os médicos e enfermeiras cuidam do resto”.

Na casa de parto, pouca gente, muita proximidade; uma equipe pequena que te chama pelo nome. Sentimos que havia espaço para se expor, para se sentir acolhido. Não evitaram de falar sobre os detalhes do andamento e duração do parto, os cuidados com o corpo. E que, fundamentalmente, uma casa de parto é dirigida por parteiras. Lá as mulheres não são pacientes. Isso já se relaciona com a própria maneira de encarar o parto — não se trata de uma intervenção médica, mas de um evento da vida.

Não haveria muita diferença em termos de custo. Uma casa de parto não cobra mais caro, ao contrário do que se pensa.

Como falarei mais adiante, a casa de parto também tem seus pontos fracos. Independente da escolha, o importante é que a mulher se informe muito, sobre o andamento do parto, sobre os procedimentos. É recomendável fazer um plano de parto e encaminhar para a instituição ou para a equipe que realizará o parto domiciliar.

TÃO LOGO CHEGAMOS NA CASA DE PARTO [relato de parto, 3/3]

a parteira fez o exame de toque e surpresa: dilatação total! inacreditável, eu achava. Mas já? Eu queria entrar na banheira, cantar músicas, até dormir entre uma contração e outra, como tantas outras mulheres contam que fizeram. Que nada! Tudo o que eu tinha que fazer era pressão a cada contração. 

Imagine, o Marco nem tinha descarregado ainda a mala do carro. Quando ele volta já escuta a parteira chamando o resto da equipe: – Vem gente, vai nascer agora!

Escolhi ficar de quatro, nas contrações arqueava as costas (uma postura da ioga, eita como foram boas aquelas aulas). Deu sede, me trouxeram água, que eu tomava de canudinho. Ainda bem que logo de cara a parteira percebeu que não precisava de cardiotoco e me tirou aquela coisa da barriga que me poderia tirar a concentração.

Foram talvez quatro contrações, entre elas pude colocar a mão na região do períneo e sentir a cabeça do bebê prestes a sair. Segurava fortíssimo as mãos do Marco e ali eu realmente senti o que chamam de círculo de fogo. Eu gritava muito, com todas as minhas forças, dizia ao Marco: – tá queimando! Sentia também todo o corpo do bebê querendo sair, as mãos e os pés se mexendo ainda lá dentro, algo sem igual.

Entre uma contração e outra olhei pro lado e vi aqueles instrumentos cirúrgicos, me bateu o medo de as parteiras me fazerem uma episiotomia; gritei: — o que vocês vão fazer comigo?! Elas: — nada, é só fazer força, vai! Marco foi do outro lado ver o bebê nascer. Tão logo saiu, apenas apoiaram-no e  colocaram abaixo de mim, deitado na cama. Era uma coisa linda, de olhos bem grandes, braços abertos, suspirando e choramingando calminho, sob o sol amarelo que entrava pela janela.

Depois de olhar nos olhos daquela coisinha linda e pequena, que viveu dentro de mim até aquele momento, olhei pra baixo e vi: — Marco, é um menino!

Peguei-o nos braços, deitei na cama,  pequenino, molhado, com sangue. Fiz esse movimento com cuidado, pois o cordão umbilical era curto. Com o cordão já branco e vazio (isto é, depois que todo o sangue passou da placenta para o corpinho do bebê), o Marco fez o corte. Abraçava-o, aproximei-o do seio para tentar mamar. Não tinha leite ainda, nem colostro, ele não sugou tanto, mesmo assim foi um momento importante, a parteira instruiu como dar de mamar. A placenta saiu logo depois. Pudemos ver aquela outra metade do bebê, que o alimentou aquele tempo todo. Perdi bastante sangue, disseram as parteiras, mas não tive feridas grandes, somente um cortezinho perto do canal da uretra, coisa que não precisou de pontos… ufa! Algo que ajudou muito nisso foram as massagens no períneo, feitas  a partir da 34a semana da gestação. Altamente recomendável.

Assim Francisco nasceu — 14 de agosto de 2013, às 9h42 da manhã, com 2,5kg e 46 cm, depois de um trabalho de parto rápido e surpreendente! Foi lindo!

único registro fotográfico do parto; uma mãe muito feliz, um pai chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez

único registro fotográfico do parto: uma mãe muito feliz, um pai fotografando chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez

Mas todos esses dados — hora, peso, altura — só soubemos depois. Isso porque todas saíram da sala, somente nós três ficamos lá, nos conhecendo: uma hora juntos, a sós, Marco, Francisco e eu. Aos poucos a equipe voltou. Subi pro quarto, estava tremendo, morrendo de frio. Me enchi de roupas e deitei. Soube também que o Francisco estava com a temperatura corporal baixa, mas de resto estava tudo bem; apgar 9/10/10 e tudo em ordem.

O resto do dia dormimos muito, ele começou a mamar (falar sobre a amamentação rende longos textos!) e recebemos as primeiras visitas da família. Ficamos na casa de parto de quarta até sábado, quando voltamos pra casa.

*

Contando essa história a um amigo, ele logo perguntou: — você enfrentaria tudo isso tudo de novo, toda aquela dor? — É claro que sim! Não mudaria nada nessa história, nem mesmo se eu pudesse!

Entre a montanha russa, a escalada de uma montanha ou a maratona de que falavam, com que imagem fiquei da minha experiência? Pensei muito e ainda não sei dizer. É um pouco de tudo isso, e ao mesmo tempo diferente, que foge a qualquer comparação. Só sei que foi algo surpreendente, pela relativa rapidez (eu achava que iria durar horas e horas, ou até mais de um dia! menos de dez minutos depois de termos chegado na casa de parto, Francisco nasceu). Foi uma experiência que me deu muita força e coragem para viver todo o resto, ser mãe, acompanhar junto com o Marco o crescimento do Francisco. Algo, sobretudo, construído juntos, com muito amor e uma enorme felicidade de ter dado ao nosso filho um nascimento que respeitou o seu tempo, que respeitou o meu corpo e o seu corpo, os meus desejos e instintos. Que esse respeito e esse amor sejam o combustível, a luz e o calor para a nossa vida juntos, para a vida toda do Francisco.

*

Tantos clichês rodeiam a mulher grávida. Assim como há uma imagem arquetípica da mulher que oprime as mulheres reais, existe a mulher grávida arquetípica: aquela mulherzinha fragilizada com as mãos nas ancas e de pernas abertas, acima do peso, comendo tudo o que vê pela frente, com desejos de comidas estranhas, sob o poder de hormônios incontroláveis, correndo muitos riscos, com problemas de saúde aqui e ali. Sempre me percebi muito frágil: já fraturei tantos ossos, tive tantas alergias e problemas respiratórios, não consigo nem correr até a esquina. Mesmo antes de engravidar, tinha aqueles medos clássicos da gravidez: medo de hemorróidas, das varizes estourarem… enfim, medo de não dar conta. E não é que nada disso me aconteceu? Viajei, caminhei, subi escadarias, enfrentei frio e calor, fiz tudo o que meu corpo permitiu.

No começo da gravidez, li um texto da Ana Cristina Duarte que me tocou muito. Muito bem escrito, com uma postura aberta e sincera, mostrava a realidade de tantos nascimentos, controlados pelo relógio, pelos custos, pela manipulação e submissão do corpo da mulher. Disse a mim mesma: — não quero isso para mim, nem para o bebê.

Meses depois, consegui o que desejava; deixei medos e mitos de lado, disse muitos “nãos”, enfrentei médicos que me desacreditavam, fui contra o que pensava tanta gente ao redor, tomamos o Marco e eu a responsabilidade para nós e superamos uma história que infelizmente ainda se repete em tantas partes do mundo.

Nesse percurso de leituras e investigações, de pequenas lutas a cada dia, aprendi muito sobre mim mesma. Sou forte, posso —  bem aquela imagem da operária mostrando o muque e dizendo com o olhar implacável: we can do it! Descobri uma força que todas temos dentro de nós mas que muitas vezes vive calada. É essa coisa tão linda que eu desejo a todas as grávidas, a todos os bebês.

Não quero nunca esquecer a carinha do Francisco da primeira vez que o vi, seus olhinhos, o cheiro, o amor que a cada dia só cresce.
agradeço a  Jamila e Gabryelle; mesmo à distância, e de maneira bem sutil, elas me deram pequenas pistas que tive prazer em trilhar; obrigada a elas e a todas as pessoas com quem cruzamos nesses caminhos

DURANTE A GRAVIDEZ [relato de parto, 1/3]


eu me deparei com várias imagens para descrever o parto. Seria como andar de montanha russa, depois de uma longa espera na fila. Ou então, seria como escalar uma montanha: é preciso muita energia e paciência. Como uma maratona, demanda preparação física e concentração.

Muita gente falava em ondas, como as do mar. Em outros relatos, falava-se em círculo de fogo. E mesmo em perda de consciência — que também pode levar o nome de partolândia… Foi somando essas e outras imagens, em tantos relatos e vídeos de parto que acompanhei ao longo da gestação, que fui me preparando. É por isso que acho necessário escrever o meu próprio relato, para informar e inspirar outras pessoas, sejam futuras mães e pais, sejam quaisquer outras pessoas.

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Terça, 13 de agosto, fiz o que fazia normalmente nos dias anteriores: li, escrevi, ouvi música, tirei fotos do barrigão, saí pra passear, fizemos compras no supermercado. Fomos dormir. Acordei quando a bolsa se rompeu, pelas 3h30 da manhã: — Marco, a água! E justamente ele sonhava, naquele exato momento, com a bolsa estourando!

(parêntese: é algo curioso, pode ser somente uma coincidência, mas esse horário da madrugada, entre 3h e 4h era o momento em que sempre me batia uma fome, acordava e ia pra cozinha comer alguma coisa. É também o horário em que o Francisco se despertava e pedia leite nos primeiros meses.)

Tomei um banho; saía um pouco mais de água e sangue. Não percebi nada que pudesse se assemelhar ao tampão. Sob o chuveiro pensava: – nossa, mas agora é que tudo começa? é assim? já? A data provável era 20 de agosto, dali uma semana. Uma amiga havia sonhado que o nascimento era dia 16. Será que vai demorar mais de um dia o trabalho de parto? Dia 14 era justamente dia de mudança de lua, de lua nova para crescente; dizem que é propício a nascimentos…

Bem lentamente, sem qualquer stress, fui preparando as coisas pra irmos à casa de parto, que fica a uns 15 minutos de casa. A mala não estava totalmente pronta. E mesmo dentro do carro me dava conta de algumas coisas que tinha esquecido…

(aqui eu me lembro da calma super inspiradora de Erykah Badu, ao contar como se preparou para o parto de um de seus filhos; agradeço muito ao Cícero por ter me enviado esse vídeo)

As contrações vinham a cada 2-3 minutos, eram rapidinhas. Não sentia tanta dor — ou melhor, não sabia dizer o quão forte eram.

Chegando lá, a parteira de plantão me examinou e disse que o melhor seria voltar pra casa, tinha pouca dilatação e ela não sabia dizer se tinha acontecido uma ruptura grande da bolsa — ela apostava que tinha sido pouco, eu realmente não sabia dizer. Um primeiro parto pode durar muitas e muitas horas, isso eu já sabia. Por isso ela me recomenda tomar um remédio pra dormir. Eu muito raramente tomo remédio — e nunca tomei remédio pra dormir. Fico indecisa. Mas algo dentro de mim diz: — não! não tome remédio!

Ouvindo essa voz interior, recusei o remédio; a parteira insistiu algumas vezes, mas me mantive firme. Ela argumentava que eu precisaria de força pra encarar o trabalho de parto, que o melhor naquele momento era dormir para esperar contrações mais fortes.

Voltando pra casa umas 5h da manhã, me batia também a dúvida: será mesmo que era melhor tomar aquele remédio? Como seriam as próximas horas? Deveríamos retornar à casa de parto umas 10h30, para um novo controle.