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ALGUMAS RECOMENDAÇÕES PARA VOCÊ MELHORAR SEU APRENDIZADO EM FRANCÊS (E EM OUTRAS LÍNGUAS ESTRANGEIRAS)

é o título de um texto que traduzi para meus alunos de francês. Era o apêndice de um livro sobre estratégias de aprendizado, uma lista de dicas muito simples e ao mesmo tempo importantes.

Normalmente, no primeiro dia de aula eu apresentava e lia com as novas turmas. A primeira aula era o momento de me apresentar e perguntar a cada pessoa na sala a sua razão de estar ali. Achava super especial esse primeiro contato, esse encontro. Tão especial quanto eram as despedidas de final de semestre, quando se fechava um ciclo. Tenho saudades da época em que era professora. Foi um tempo de trabalho muito intensivo, noites mal dormidas, mas também de belos encontros, risadas e ricas trocas.

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Voltando ao texto, ele estava meio perdido no meu blog velho e acreditei que ele merece ser republicado. Revisitá-lo agora que eu estou no meio de meu aprendizado de alemão também me incentiva a mim mesma a procurar maneiras variadas de me apropriar dessa língua tão difícil e fascinante — como tantas e tantas outras.

estratégia 1
Tenha seu aprendizado em mãos

Cada um aprende uma língua de maneiras diferentes. É preciso encontrar as técnicas que funcionam melhor para você.

Sugestões:
– Tente diferentes formas de aprender.
– Pergunte aos outros como eles conseguem aprender.
– Continue a usar as técnicas que parecem eficazes.

estratégia 2
Organize-se

O aprendizado de uma língua depende de um certo grau de organização da matéria: a pronúncia das palavras, o sentido das palavras e das frases, a forma das frases, o que implica igualmente numa organização do próprio aprendizado.

Sugestões
– Organize a agenda de modo a poder estudar fora do horário das aulas.
– Tente aprender alguma coisa nova todos os dias, fora das aulas.

estratégia 3
Seja criativo

Para aprender uma nova língua, você deve se aplicar pessoalmente. O francês vai cedo ou tarde “fazer parte de você”. Para isso, é preciso praticar.

Sugestões:
– Tente encontrar a regra que rege as frases que você ouve.
– Tente utilizar as palavras novas em novos contextos. Se você errar, pergunte por quê.
– “Brinque” com a língua.

estratégia 4
Crie suas próprias ocasiões para praticar

Para aprender uma língua, é preciso ser ativo, é preciso praticar a língua. Logo, é preciso encontrar ocasiões para falar, escutar, ler e até mesmo escrever.

Sugestões:
– Faça todas as atividades em sala de aula. Responda para si mesmo todas as questões que o professor faz a outros alunos. Observe os colegas de sala e verifique as respostas deles.
– Não tenha medo de fazer perguntas e de falar com pessoas que falam francês.
– Escute rádio em francês, assista televisão em francês, leia jornal em francês.
– A melhor maneira de praticar o francês é você falar francês.

estratégia 5
Aprenda a viver com a incerteza

Quando aprende-se uma língua, é preciso viver com a ambigüidade, com o inesperado e o incompreendido.

Sugestões:
– Não se apóie muito no dicionário. Ao ler, tente compreender o sentido geral lendo rapidamente o texto inteiro diversas vezes em vez de consultar o dicionário ao achar uma palavra que você não entende.
– Mantenha a calma! Se você não entende o que te dizem, peça para repetir, para falar mais devagar, para reformular. Não tente entender cada uma das palavras. Adivinhe!

estratégia 6
Utilize técnicas para melhorar sua memória

Sugestões:
– Agrupe palavras que rimam ou que começam com a mesma sílaba.
– Faça uma imagem mental do sentido das palavras.
– Tente associar uma nova palavra a outras que você já conhece.
– Tente agrupar palavras de acordo com sua função, categoria, etc.

estratégia 7
Não tenha medo de errar

Errar é natural. Os erros podem ser úteis se você os aproveitar para melhorar seu aprendizado.

Sugestões:
– Não espere poder dizer tudo corretamente antes de falar e de tudo entender antes de ler. Corra riscos! Pratique a língua!
– Tente perceber a diferença entre os tipos de erro que você comete: se são erros que estão de acordo com o sistema da língua (ao se dizer “uma menino”, há só uma questão de gênero inadequado) ou se são frases que fogem ao sistema (nenhum falante de português diria “menino um” no lugar de “um menino”, por exemplo)
– Tente entender a origem dos seus erros.
– Assegure-se que você entende as correções do seu professor.
– Tente julgar a relativa importância dos seus erros.
– Tente determinar quais erros mais incomodam seus interlocutores.

estratégia 8
Use seus conhecimentos em línguas

Você conhece ao menos uma língua. Todas as línguas se assemelham até certo ponto. Você pode então utilizar (conscientemente) seus conhecimentos em línguas para ajudar no aprendizado do francês.

Sugestões:
– Tente encontrar pontos comuns entre sua língua materna ou outras línguas que você conhece e o francês, no plano da pronúncia, da forma e do sentido.
– Tenha consciência das diferenças entre o francês e sua língua materna, ou outras línguas que você conhece.
– As expressões idiomáticas raramente têm o mesmo sentido e geralmente não se traduzem literalmente.

estratégia 9
Leve em conta o contexto

O sentido de uma palavra ou expressão é quase sempre determinado pelo contexto do enunciado no qual ele se encontra. É preciso então fazer uso do contexto para adivinhar o sentido da mensagem. É preciso estabelecer ligações entre as palavras, os sintagmas, as frases de uma conversa ou de um texto para compreendê-las melhor.

Sugestões:
– Preste atenção às relações entre as palavras.
– Utilize o sentido geral do enunciado para adivinhar o sentido preciso de uma expressão.
– Utilize o sentido geral de uma conversa e de seu contexto para adivinhar o sentido de uma frase.
– Recorra ao contexto social para adivinhar o sentido de certas palavras.

estratégia 10
Aprenda a adivinhar de maneira inteligente

Quando aprendemos uma língua, é importante decodificar não somente a mensagem mas também as intenções de quem fala. Para isso, é preciso utilizar seus conhecimentos do mundo e do que sabemos da comunicação verbal de maneira geral.

Sugestões:
– Tente sempre buscar o contexto geral da mensagem: o lugar, as pessoas, etc.
– Focalize suas atenções às coisas essenciais.
– Use probabilidades contextuais.
– Considere que o “aqui e agora” é pertinente.
– Leve em consideração que algumas de suas hipóteses estejam incorretas.

estratégia 11
Aprenda de cor algumas expressões sem as analisar

Em toda língua existem expressões idiomáticas que resistem a uma análise detalhada. É preciso aprendê-las globalmente sem tentar analisar suas partes.

Sugestões:
– Utilize o contexto no qual você escutou ou viu a expressão pela primeira vez para tirar o sentido geral.
– Não tenha medo de utilizar essas expressões e verificar a reação de seus interlocutores.

estratégia 12
Aprenda algumas rotinas e fórmulas

Toda língua tem suas maneiras de começar e terminar conversas, fórmulas para encorajar o interlocutor para continuar a falar, para interromper ou ainda fórmulas para se desculpar, recusar, oferecer ajuda, etc.

Sugestões:
– Aprenda rotinas para dar início e terminar conversas, para saudar e se despedir, para fazer e atender uma ligação telefônica.
– Aprenda fórmulas qui indicam que você escutou, que você entendeu (ou que você não entendeu).
– Aprenda fórmulas que permitam exprimir suas reações, indicar que você está de acordo ou não está de acordo.
– Aprenda a motivar o interlocutor aprendendo fórmulas que o incitem a reagir.
– Aprenda a “administrar” conversas aprendendo fórmulas rituais como: “sabe?”, “não é?”, “né?”, etc.

estratégia 13
Aprenda a utilizar diferentes registros

A maneira com que uma coisa é dita é muitas vezes mais importante do o que é propriamente dito. Toda língua utiliza diferentes registros de acordo com a situação, de acordo com o assunto tratado, etc. Quando aprendemos uma segunda língua, essas variações não são sempre evidentes e temos tendência a nos limitarmos a formas o mais neutras possível.

Sugestões:
– Preste atenção à maneira com a qual o professor se dirige a você. Ele usa o pronome tu ou vós? Ele usa o seu prenome ou seu sobrenome?
– Tente se sensibilizar a variações em geral. Quais fatores interferem? Sexo, idade, condição social, lugar, assunto da conversa?
– Tente reconhecer diversas maneiras de dizer uma mesma coisa.

Traduzido e adaptado de
Cyr, Paul. Stratégies d’apprentissage.
por Ana Amelia Coelho Pace

HÁ IDIOMAS

em que a palavra “outono” não existe – explicava um senhor que dominava muitas e muitas línguas diferentes. Sem a palavra outono, as folhas das árvores não mudam de cor, não caem. E também chega a primavera – continua ele. Só se vive os dois grandes momentos opostos do ano: o verão e o inverno.

Por outro lado, há palavras escondidas para momentos do dia e cores do céu que não conseguimos enxergar.

ERA UMA VEZ

uma menina que escrevia; ela passava o dia todo pensando nas histórias que ia contar aos amigos: os passeios, os sonhos que ela teve com eles, com personagens de outras histórias, com diretores dos filmes que iam ver no cinema, matando aula; juntava desenhos que encontrava por aí, fotos e cartões postais perdidos no meio dos livros que ela espanava nas estantes; salvava imagens de sites perdidos na internet.

Ela tinha um jeito de escrever que não existe mais – diz um leitor, que sabe de cor um texto dessa menina, que ela mesma desconhece; texto lindo esse, que ele não consegue mais encontrar em lugar nenhum.

TUDO É FEITO

de átomos, fomos informados numa aula de ciências. Já tinha visto na tevê: eram bolinhas que giravam umas em torno das outras.

Esses pedacinhos de tudo se mexiam, mesmo nas coisas mais sólidas que existem, eles estão lá, não param. E como poderíamos ser formados por algo que tem tantos espaços vazios?

Eu ficava pensando se poderíamos esfarelar como uma paçoca, se os átomos todos resolvessem se mexer de um jeito diferente, de repente.

NO CURSO DE INGLÊS

o primeiro professor se chamava Marcos: nunca falava em português, entendíamos tudo o que dizia. Depois, uma senhora ex-secretária bilíngue. O sotaque dela era criticado discretamente pelo professor do básico 3: um japonês que trabalhava na Varig e viajava pelo mundo, dando preferência aos lugares obscuros da Ásia, como Bandar Seri Begawan, capital do Brunei.

No intermediário o professor era apaixonante. Ele não conseguia nos convencer que tinha 14 anos – assim como eu também parecia mais velha. Ia no Balafon, balada na rua Sergipe, entrava porque enganava a idade. Era de Recife, quando falava português ficava evidente. Amava Pink Floyd, passou Wish you were here e umas outras deles. Sobre ele, me confundo particularmente: ele usava camisa xadrez azul de flanela, como eu também?

CAFÉ COM CHOCOLATE

o café: preto, sem açúcar, de coador ou expresso; chocolate: pouco doce, meio amargo, já foi alpino mas ultimamente tem sido diamante negro. Comida utilitária, alegra e espanta o sono. No prédio da Sociais, antes da aula ou no intervalo, entre os banquinhos de cimento, embaixo das árvores, com pedaços de conversa e fumaça de cigarro.

Beijo para a Dani Prado que contribuiu nessa receita como em outras que virão.

GUARDEI UMAS FOLHAS

no meio do caderno, para ler depois, anotações de um ciclo de palestras; mais de dois anos se passaram, peguei agora. Pouca coisa das notas me dá alguma informação precisa –  incompletas e lacunares demais. Não sei o que foi dito pelos professores e o que eu mesma pensei. Alguma coisa ali ainda é verdade para mim hoje.