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DIA OITO DE JULHO

de 1981 eu nasci. Mas fui saber disso muitos anos depois. Minha mãe me mostrou o documento da maternidade com a data. Até então, meu aniversário era 9 de julho.

Como assim? Eu nasci no dia 8. Mas fui registrada com outra data de nascimento. Em todos os meus documentos consta o dia 9.

Durante muito tempo, deixei essa historinha em segredo. Mantive o dia 9 para comemorar. Poucas pessoas mais próximas sabiam do dia 8 e temia que elas revelassem a verdade para todo mundo… isso porque eu preferia o dia 9 ao 8. Achava numericamente mais simpático.

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Uma vez fizeram meu mapa astral e nem me dei conta que informei a data errada! Deveria ter dito dia 8 mas automaticamente disse: dia 9/7/81. Um mapa com um dia de diferença não teria um resultado condizente com a realidade. Estaria mentindo para mim.

Aí fui me dando conta que faz diferença um dia ou outro. Os dois dias tem seu valor e significado, à sua maneira. Não existem separadamente. Cabe a mim conciliá-las, me alegrar e viver com elas.

MEU ANIVERSÁRIO

é no mês de julho e quase sempre acontecia durante as férias da escola — ou ao menos no final de semestre. Minha irmã nasceu numa data bem próxima, por isso organizava-se uma festinha para as duas, sempre simples, em casa.

Virou feriado na cidade de São Paulo, quando eu já tinha uns 10 anos. Assim, era um dia livre, sem escola nem trabalho. Comemorava junto com a irmã ou outras amigas que também nasceram em julho.

Uma vez era final da Copa, França e Itália; o bar cheio de gente vendo o jogo no telão. Foi divertido, talvez porque o jogo tirava um pouco da atenção sobre o momento.

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Os anos foram passando e meu aniversário começou a me trazer uma sensação estranha. Uma vez estava voltando de avião pra casa, depois da primeira viagem ao exterior. E em outros anos, calhou de passar o aniversário fora, por conta de alguma viagem — fazendo cursos, que normalmente acontecem em julho, período de férias estivais no hemisfério norte. Aí um ano eu realmente me mandei. Quis me isolar, ter pouca gente ao redor. E repeti o isolamento outras vezes. Ia pra algum outro lugar. Evitava que as atenções se voltassem para mim.

Ano passado estava já com um barrigão. Fiz poucas coisas, comemos fora. Não vi muita gente. Preferi assim.

Muitas vezes associamos aniversário com festa, ver pessoas, comer e beber, agitação, barulho. Acho bem válido, mas não em todos os casos. Aniversário é a marca do nosso nascimento, nossa vinda a este mundo. Recomeça um novo ano. Deve ser especial sim. Mas não necessariamente efusivo.

Pode ser que ano que vem eu mude de ideia e faça uma grande festa. Pode ser que não. Quem sabe?

O VESTIDO NOVO

tinha mudado de cor. Comprei um vestido cinza claro na feira de roupas em Palmas. Bonitinho, de botões prateados, como as das meninas em dia de festa. Então usei no dia do meu aniversário, para ser uma menina também.

No sonho que eu tive, meu vestido, de cinza, cor que gosto por combinar com quase tudo, inclusive com outros cinzas, tinha mudado de cor. Mais precisamente: ele, depois da primeira lavagem, virou cor de vinho. Ainda guardava algo mais clarinho, umas flores amarelas aqui e ali.

Essa passagem de cor parecia, no sonho, algo esperado, parte de uma coisa costumeira, a mudança de cor de um vestido que se usa no dia do aniversário. Como uma folha de papel que permite que se use cores nela, que ela mude com a tinta que recebe e absorve.