Arquivo do mês: agosto 2015

A SOLIDÃO

é tema recorrente das conversas de mãe. Muita coisa muda depois da gravidez e do nascimento da cria. Uma delas é a relação com o mundo e as pessoas ao redor.

Nos primeiros meses, a tranquilidade é fundamental, para viver uma boa lua de leite, descobrir os pequenos detalhes do bebê, reconhecer seus sinais, falar com ele — e sobretudo descansar.  O pós-parto é um momento de transformação imensa; por isso, melhor fugir de quem dá palpites demais e acaba interferindo na relação entre mãe e bebê.

Aqui, me concentrei a fundo na vida de mãe — coisa que contei no nesse post . O resultado, ao longo dos meses, é um dia a dia bem isolado. Saímos para brincar no parquinho, andar por aí, ir ao correio, fazer compras. Tudo isso com uma certa flexibilidade de horários, muitas vezes sem pressa.

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Mas o tempo passa — rápido, num piscar de olhos — e me vejo num momento de transição. O Francisco quer sair de casa. Sua vontade faz bem não somente a ele, que quer ver o mundo, conhecer outras crianças, descobrir os parquinhos, com seus escorregadores, gira-giras e balanças; quer pegar ônibus, bonde, trem; escolhe os caminhos pela rua, se vamos à esquerda, direita, em frente. Faz bem a mim também. Me faz reatar os laços com o mundo, me dá a possibilidade de assistir a novos começos.

A rotina em casa mudou? Muito! Antes, eu tinha tempo para fazer um café da manhã em casa, todo balanceado, preparar o almoço. Fazia massagem no Francisco, a gente tomava banho… enfim, era tudo diverso dos últimos dias. São fases, elas vem e se vão. Que eu possa sempre estar atenta às mudanças, reinventar o cotidiano e me alegrar com as experiências que se acumulam na lembrança.

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UM RELATO SOBRE ALIMENTAÇÃO

ficou na pasta dos rascunhos durante uns seis meses; eu pensava em enviar para um outro blog, sobre alimentação para crianças, mas acabei decidindo por publicar aqui mesmo, já que venho falando sobre o assunto em vários outros posts (como esse aqui) — por isso, aí vai.

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não tenho na memória muitos momentos sobre ter sido ostensivamente forçada a comer. ainda assim, lembro que na pré-escola, na hora do almoço, me enfiaram goela abaixo uma mistura de arroz, feijão e ovo frito. eu chorava muito. sempre chorei bastante no prezinho, porque queria ficar em casa brincando com minha irmã e meu irmão, mais novos do que eu. filha mais velha, eu precisava ir logo para a escolinha, não podia ter colo e era grande demais para entrar no carrossel.
 
quando meu irmão nasceu, eu já tinha três anos e largado a fralda. mas quis fralda de novo, para ser igual a ele.
 
fazendo essa relação, também me recusava a comer como gente grande. meus primos comiam de tudo, eram até gordinhos. um exemplo para mim! mas eu era magrinha e ficava sempre doente.
 
uma coisa eu gostava de comer: doces! uma vez um tio me deu um saco cheio de balas, pirulitos, chicletes de todo tipo. comi tudo numa tarde só. tive diarréia, vomitei, passei muito mal.
 
já grandinha, minha diversão era sair da escola e passar na loja de doces, que vendia balas por quilo. escolhia com carinho as balas, pensava num roteiro: começo com a bala de banana, depois a bala de hortelã, em seguida a bala de morango, etc. etc. caminhava até em casa durante uma meia hora, com o saquinho de papel na mão. quantos gramas de bala eu teria chupado? 100, 200? por quantos dias eu segui esse ritual, dentre tantos outros rituais com a comida que criava na minha rotina?
 
outra coisa que eu comia sem dificuldade era gema de ovo frito. somente a gema! a clara me dava nojo. aí me mostraram a gemada. gema crua, muito açúcar. eita! depois que eu criei gosto pela coisa, me disseram que poderia colocar nescau junto. leite também fica gostoso. enfim, pouco tempo depois lá estava eu comendo massa de bolo cru.
 
doentinha e magra, minha mãe se preocupava comigo. descobriram uma receita milagrosa para dar apetite: biotônico fontoura com ovo de pata e leite condensado. uma colherada cheia logo pela manhã.
 
meu apetite virou uma coisa monstruosa. eu brigava e gritava com meus pais se eles não me dessem quatro esfihas de queijo. quatro esfihas, nem mais nem menos! no café da manhã eu comia dois pães franceses. recheava o pão com biscoito maria e geleia de morango.
 
de magrinha, tornei-me uma pré-adolescente obesa. tive que começar a usar roupas de adulto, porque os tamanhos infantis eram pequenos demais para mim.
 
eu sabia que era gordinha, mas compensava minhas energias no estudo. era uma aluna exemplar, 10 em todas as matérias. fui a melhor aluna da quinta série, premiada e tudo. adorava ir a concerto de música clássica, frequentava várias bibliotecas, assistia os documentários da tevê cultura.
 
mas também era uma menina muito agressiva em casa, com a família. gritava muito, quebrava coisas, chorava. ficava doente com muita facilidade: sinusite, conjuntivite, hepatite, escarlatina, rinite alérgica… também tive diversas distensões e luxações nos dedos das mãos.
 
para encurtar a história, estou até hoje revendo e reaprendendo a comer. minha família agiu da maneira que pôde, preocupada com a minha saúde, dando conta de todos os conflitos ao redor. mas ainda sou uma pessoa com imunidade fraca e digestão difícil. a idade vai pesando e os efeitos vão ficando mais aparentes. fui aprendendo meio na marra que preciso, com meu esforço, abandonar os doces que tanto fizeram parte da minha vida.
 
evito ao máximo açúcar e farinha de trigo. dificilmente consigo me controlar se há um pedaço de chocolate por perto. por isso, guloseimas pouco entram em casa.
 
tenho um filho pequeno. busco dar a melhor alimentação a ele. todo dia vou atrás de informações novas, receitas saudáveis, alternativas naturais. e espero permitir a ele uma relação mais leve com a comida.

MEDO DE INSETOS

seja de abelhas, pernilongos, baratas — nós, pessoas, seres humanos, grandes e desenvolvidos, sentimos a ameaça desses animais tão pequenos, mas complexos e cheios de poderes que não temos: voam, sobem paredes, carregam muito peso, trabalham organizadamente em grupo. Eles nos picam, nos machucam, sugam o sangue, incomodam o sono, destroem plantas.

Esses dias tive um sonho, como vários outros sonhos que já tive com insetos (como esse e esse por exemplo) e o tema me voltou à mente. Nos dias quentes, há muitas abelhas e vespas nos passeios que faço com o Francisco. Algumas noites aparecem baratas e pernilongos para nos chamar a atenção: ei, não estamos sozinhos aqui, não comandamos e controlamos tudo.

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Durante a primeira consulta no homeopata, já faz quase 10 anos, ele perguntou: “do que você tem medo?” Uma das respostas certeiras foi: abelha. Quando pequena, acontecia de eu ter muito pavor delas: tinha um copo de refrigerante à mão, saía correndo, jogava o copo para qualquer lado, os olhos cheios de lágrimas — tudo isso porque uma abelha me cercava, atraída pelo doce da bebida que eu segurava. Levei uma ferroada anos e anos depois, em outra situação muito diferente, já longe dos refrigerantes.

Estou tentando encarar o fato, até porque, agora mãe, a gente precisa por um lado proteger e por outro dar exemplo. Não quero esconder meus medos, mas preciso também não ceder a eles. Entendê-los, resolver o que eles significam. Ainda assim, dou um grito frente a barata. Me esquivo quando sinto abelha por perto. Ligo o ventilador no quarto para espantar os pernilongos. Mas também percebo que estou mais tolerante com os insetos. Não os mato mais como antes. Isso veio com o marido, que prefere pegar os bichinhos e soltá-los fora de casa do que dar uma chinelada. Deixo algumas teias de aranha na janela de casa. Até vou observando o desenho que muda, se não me engano, de acordo com o tempo, se chove, se faz calor (coisas do Manual do escoteiro mirim).

Num dos sonhos que tive, percebi que de nada vale matar um inseto, porque eles são inúmeros: um deles equivale a todos os outros, foi o raciocínio que me veio. E, na verdade, eles são como nós, seres frágeis e fortes, aqui nesse mundo, levando sua efêmera vida, cheia de percalços, delícias e encontros. Abro os olhos para entender o que eles nos dizem.

“SEMPRE PRECISEI DE UM POUCO DE ATENÇÃO”

é a primeira frase de “Teatro dos vampiros”, música do Legião urbana. Criança entre os anos 80 e 90, escutava muito no rádio os sucessos da banda. Sem me considerar uma fã deles, conheço a letra de muitas das canções — dentre tantas,  essa é uma das mais marcantes.

“Dezesseis” apareceu num sonho e o já falei de “Teatro dos vampiros” em outro post: não lembro mais do pesadelo, mesmo assim a letra música volta à mente de tempos em tempos. Só que, agora, em vez do trecho “voltamos a viver há dez anos atrás”, fico pensando mesmo no comecinho: “sempre precisei de um pouco de atenção, acho que nem sei quem sou, só sei do que não gosto”. Fui até atrás de uma análise da letra — na verdade, mais interessante é a prévia à interpretação, a historinha por trás da música, a referência a Entrevista com o Vampiro de Anne Rice, etc. etc. Dar uma única leitura a uma canção como essa reduz seus significados. De toda forma, é um esforço muito válido.

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A foto é retirada da versão acústica da música, aqui.

Pensando em mim, sempre busquei contato com outras pessoas, por mais que também tenha meus momentos de solidão. Preciso falar, e assim é necessário alguém do outro lado que me escute, entenda, me dê um retorno. Tive a sorte de ter boas amizades que me davam essa oportunidade; discutia também muito a relação ao longo dos namoros. Nos últimos tempos, tenho tentado recorrer menos a essas conversas. Mantenho em mim as ansiedades, receios e reflexões. Talvez seja coisa dessa fase adulta da vida, mãe e distante das pessoas com quem vivi muito tempo. A escrita é uma das formas de lançar palavras ao outro, de pedir atenção, nem que seja de mim mesma, no futuro: — Ei, Ana Amelia ali na frente, leia-me!