Arquivo do mês: março 2015

QUANDO NOS MUDAMOS

para um apartamento, depois de uns anos em casa com quintal em rua calma, fazíamos muito barulho. Mas talvez um momento ficávamos mais quietinhos: quando o dia ia acabando, o sol indo embora, era bonito ver a paisagem que se abria na janela.

O apartamento ficava no oitavo andar: em volta, poucos prédios próximos. Por isso, a visão era bem ampla. Dava para ver a torre do Banespa, o Altino Arantes, lá longe, bem no centro da nossa sala. Um belo privilégio. O sol nascia bem nessa direção, a leste. A luz invadia toda a sala, até a porta de entrada.

Olhando bem para baixo, havia muitas casinhas. Um grande terreno, daqueles antigos, com fundos vastos. Tinha uma mangueira (ou era um abacateiro?). E galinhas ciscavam. O galo cantava, principalmente de manhãzinha.

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Raramente, podíamos ver arco-íris abrindo-se no céu. A gente corria atrás da máquina fotográfica para fazer um registro desse acontecimento tão único.

Uma vez pude presenciar uma gata dando à luz, no telhado de uma dessas casas. Os gatinhos saindo, um a um, de dentro da mãe. Eu duvidava da cena, mas era aquilo mesmo.

Morávamos no mesmo quarteirão da escola. Adiante, dava para ver a quadra de esportes. Uma parte do pátio coberto também. Assim, quando eu estava doente e faltava no dia de alguma festa — junina ou da primavera — eu ficava na janela observando o movimento das crianças. Por sinal, eu quase sempre ficava doente em dia de feira de ciências ou festas. Ausentava-me dos momentos especiais e festivos da escola, ainda sem saber direito o porquê.

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POR QUE PALPITES ALHEIOS INCOMODAM TANTO?

foi mais ou menos essa a pergunta que surgiu durante a leitura desse post aqui. Na verdade, já faz um tempo que venho me questionando a esse respeito. Desde a gravidez e principalmente depois do nascimento do Francisco, já ouvi muitos comentários, de todo tipo, desaprovando minhas escolhas. Lendo e acompanhando outras mães com interesses semelhantes, percebo o mesmo tipo de situação. Muitos dos relatos são desabafos, reclamações, pedidos de ajuda.

E foi justamente num deles que acabei redigindo essa resposta. Eu já pensava em escrever um post sobre isso. Assim, o que comentei serviu de base para o relato abaixo.

Eu tentava, no começo, argumentar seriamente com as pessoas que me desestimulavam a parir de maneira natural, amamentar em livre demanda e a longo prazo, carregar no sling, fazer cama compartilhada, seguir o BLW, dar uma alimentação vegetal e equilibrada. Mas depois percebi que poucas delas queriam realmente me ouvir. Mais ou menos nessa época, o Francisco estava com uns seis meses, descobri a “comunicação não-violenta”. Estou longe de ser uma especialista no assunto, mas me interessou muito dois pontos que o livro de Marshall Rosenberg levanta: — diminuir as expectativas em relação aos outros; — não devemos agradar a ninguém mais que nós mesmos. Um ponto está relacionado ao outro.

Olhando para a minha história pessoal, muitas vezes tentei agradar o mundo: sendo uma aluna boa na escola, por exemplo (isso ecoou muito durante a leitura de “Você é minha mãe?”, da Alison Bechdel). Como mãe, também faço o melhor de mim. Mas, ao contrário da aluna com notas altas, as coisas que eu faço causam desaprovação. Isso me frustra e eu fico com raiva desse pessoal que não concorda com as minhas escolhas.

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Um dos passos, então, foi exigir menos do mundo. Ser menos exigente com a pediatra, por exemplo. Abandoná-la e procurar outro foi a melhor saída. Exigir menos de quem não quer se informar. Eu quero me informar, mas não posso pedir isso da cunhada. Se ela quer dar açúcar pra sobrinha, que eu posso fazer? Sofro por dentro pela menina, mas devo respeitar e tolerar a escolha alheia — assim como quero que me respeitem como mãe.

Uma amiga começou a circular o meme “cara de alface”. Let it be. Um comportamento meio budista. Não posso fazer nada pra mudar o mundo. Posso sim cuidar do meu filho. O que os outros pensam a respeito não é responsabilidade minha. Reclamar e criticar estava me distraindo do meu objetivo principal, eu estava perdendo energia e, pior, afetando minha saúde. Imagine se essa minha implicância começasse a prejudicar a saúde do Francisco? Não seriam as cólicas dos três meses uma demonstração de que temos dificuldade para digerir as impressões que recebemos de fora?

Ainda estou longe do que eu gostaria, ainda me irrito vez ou outra quando alguém vem me provocar. Mas aí eu lembro um pouquinho daquela frase do padre nosso “perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. Olho pro francisco, vejo como ele está bem e feliz, dou umas risadas e vou levando a vida.

Temos nossas fases e o combate tem sua razão de ser. Bom também é enfrentarmos os defeitos das nossas próprias escolhas. E ver que as pessoas falam nem sempre por maldade mas por falta de conhecimento…

Epílogo: dias depois de ter escrito isso, saiu esse post no cientista que virou mãe. E achei interessante como contraponto. Porque há a irritação com os palpites alheios — mas vivemos também o desgaste comum da vida de mãe, que busca quem a escute, compreenda e acolha.

SÍNDROME DE MIGUELITO?

era o título de um post que publiquei em 5 de novembro de 2003, no colher. Cheio de pontos de interrogação, me questiono sobre o tempo e uma provável preguiça. O interessante é que, relendo hoje, não me parece preguiça o que eu sentia. Quem sabe fosse tédio.

Lembro bem que eu me recusava a sentir tédio. Tanta gente ao meu redor falava dele, mas eu achava que aquilo não me atingia. Eu tinha muito o que fazer, sempre uma atividade, um compromisso, uma tarefa. Sentia-me feliz ocupada e distraída.

Repensando agora, evitar o tédio era também evitar pensar sobre coisas importantes na vida. Sempre em movimento, não me permitia enfrentar as dúvidas que nos perseguem.

Durante muito tempo quis ser uma menina exemplar: boas notas na escola, simpatia. Era uma tentativa de agradar, satisfazer alguma possível expectativa dos outros. Essa menina que quis ser exemplar tornou-se mãe e se confronta com a mesma questão. Só que se deu conta de que não é necessário agradar a ninguém mais que eu mesma. Se estou feliz e segura das minhas escolhas, então o mundo estará feliz.

De uma forma ou de outra nós enfrentamos o tédio, o Francisco e eu, em dias chuvosos, em que o melhor é ficar dentro de casa. Aí me defronto com minhas escolhas: suas vantagens e seus pontos fracos. Como tanta coisa na vida, nada é perfeito, tudo tem seu defeito. Luz e sombra existem uma pela outra.

Algo estava acontecendo lá em novembro de 2003. Eu não sabia explicar o quê. Fazia muitas alusões a mudanças, transformações, dar espaço a coisas novas, futuro.

Como faço agora, exponho pela escrita minhas incertezas, lanço-as ao futuro, para que eu mesma possa ler anos e anos depois.

 

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Talvez sim. Está difícil de explicar, de tentar esclarecer. De saber qual seria a razão. Não que haja só uma razão. Como também não dá pra se dizer que nada está acontecendo. O tempo está passando – como sempre. Tenho coisas pra fazer – tem sido assim desde há muito. E o que há de diferente então nesse exato momento? Cansaço? Ansiedade? Angústia? Incerteza? Alegria com pequenas coisas que a gente tenta prolongar? Fins-de-semana que passam rápido como um piscar de olhos? Desilusão? Isolamento? Vontade de desistir com uma coisa pra dar espaço pra outra? Tentar passar a limpo um monte de coisas pra uma folha nova, pra que tudo fique claro? Querer continuar a fazer o que se gosta? Iniciativa de tomar novas atitudes, ao mesmo tempo descontroladas e sensatas? Necessidade de férias que não virão? Dependência de outras coisas pra que hajam mudanças? Não conseguir saber como serão as coisas mesmo a curto prazo? Tudo isso junto. E nem tudo isso também.

Como anda tão difícil pra mim mesma tentar definir, parece que todo mundo consegue entender. E uma das maneiras de chegar mais perto disso está sendo a de demonstrar em maior ou menor ângulo justamente o que eu não sei o que é.

LEITE COM NESCAU EMBAIXO DA CAMA

— era com isso que eu tinha sonhado. Um copo de vidro, daqueles de requeijão, e leite achocolatado. Seguramente, colocavam um pouco de açúcar, para adoçar ainda mais a mistura. Era isso o que eu bebia todas as manhãs. Provavelmente, tinha pão com manteiga, ou banana, para acompanhar.

Certa vez, sonhei que o copo com nescau tinha sido deixado pela minha avó embaixo da cama, onde eu dormia. Ela teria feito isso como uma surpresa, para mim, antes de eu acordar. No sonho, eu acordo, pego o copo ainda deitada e logo bebo o leite que eu tanto gostava.

Mas o que aconteceu depois do sonho? Eu acordei, do mesmo jeito que tinha acordado no sonho. Só que dessa vez não havia nada embaixo da cama. O leite com nescau estaria na cozinha, como sempre esteve todos os dias da vida.

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Cheguei à cozinha triste. Perguntei à vovó: “cadê o leite que você colocou embaixo da minha cama?” Ela não deve ter entendido nada da minha pergunta.

Talvez já naquele momento eu teria compreendido que há sonhos muito parecidos com a realidade. Às vezes até paralelos a ela. Esses sonhos ao mesmo tempo são próximos e distantes do que vivemos. Seriam uma outra vida?

TORTA DE ESPINAFRE E BRÓCOLIS

foi uma das receitas que fiz no fim-de-semana. Encontrei-a num grupo de discussão do facebook. Os ingredientes são:

  • 3 ovos
  • 1 copo de água
  • 1/2 copo de óleo
  • 1 copo de farinha de arroz (eu tinha apenas 3/4 de copo; então adicionei 1/4 de copo de farinha de grão de bico)
  • 1 colher de sopa de amido de milho
  • 1 colher de sopa de fermento em pó
  • 1 colher de sopa de bicarbonato de sódio (não estava na receita original, mas achei bom colocar)
  • sal e temperos a gosto (usei curry, salsinha, pimenta do reino, noz moscada) queijo ralado por cima pra finalizar

Bater ovos, água, óleo, farinhas e temperos no liquidificador. Adicionar fermento e bicarbonato e bater rapidinho. Numa fôrma tipo pizza untada, colocar um pouco da massa, o suficiente pra cobrir o fundo.

Pro recheio usei coisas que estavam à mão na geladeira: espinafre picadinho, brócolis cozido a vapor e cenoura ralada. Espalhei sobre a massa e depois cobri o recheio com o restante da massa. O queijo ralado foi uma outra improvisação.

Levei ao forno, 200 graus, por mais ou menos uma hora. Deixei esfriar. A torta foi consumida fria, no almoço do dia seguinte.

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