Arquivo do mês: junho 2014

ERA FESTA JUNINA

no pré, a professora estava organizando a quadrilha. Não lembro direito: acho que na turma havia bem mais meninas que meninos. Por isso, não dava pra criar pares sem que algumas meninas se vestissem de menino.

Qual o critério que a professora levou em conta pra escolher que meninas seriam meninos? Arrisco dizer que eu mesma me ofereci pra ser menino.

As roupas de quadrilha das meninas pareciam chatas. Aquele chapéu com duas trancinhas magras e postiças nunca me agradou. Eu, de cabelo ralo e curto também não poderia ter boas tranças.

A roupa dos meninos era toda improvisada. Não precisava comprar pronta no Jumbo, como o vestido de chita. Era pegar uma calça jeans e costurar remendos falsos. Uma camisa xadrez de flanela, que sempre tivemos. Qualquer sapato ou tênis. Um lenço colorido da mãe. Com a maquiagem da mãe também, fazer uns desenhos de bigode e cavanhaque. Ah, não esquecer de pintar uns dentes de preto. Tá pronta.

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A foto é escura; mesmo assim dá pra perceber meu sorriso.

Muitos anos depois, dancei quadrilha de menina, com tranças verdadeiras e tendo como par meu então namorado.

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“E O MEDO?”

muita gente já me perguntou, das maneiras mais variadas. É normal esperar que se sinta medo durante a gravidez e principalmente o parto. A dor, sobretudo, é o que mais assusta.

No começo da gravidez relembrei a célebre frase do Gênesis: “parirás teus filhos com dor”, algo assim. A dor seria então um castigo divino, equivalente ao suor do rosto, o trabalho árduo necessário à sobrevivência.

Dá medo de um castigo tão forte imposto a nós mulheres? Uma moça me disse, no começo da gravidez: “é impossível suportar as contrações; você vai pedir por anestesia!” Ela teve seus dois filhos por cesárea, eu nem quis argumentar; limitei-me a dizer: “eu prefiro parir sem anestesia”.

Sim, a minha ideia era sentir tudo. E felizmente foi o que eu vivi.

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Não lembro mais onde eu li que o contrário do medo é o amor. Dediquei-me a amar tudo com todas as minhas forças: amar a mim, meu corpo, o Marco, x bebê. Amar a água, a comida, o sol, a cama. Tentava irradiar de alegria. Fechar os olhos e ficar desejando o melhor para nós.

Muitas vezes se compara o parto com um passeio de montanha russa. Faz bem sentido: uma vez lá no alto, o melhor a fazer é se deixar levar. No caso das contrações, deixando o corpo livre, movimentando-se, gritando, abraçando alguém próximo.

Bem no momento em que o Francisco estava saindo, o que fiz foi segurar as mãos do Marco. Eu sentia o círculo de fogo, talvez o ponto mais forte do parto. Dias depois, me disse o Marco que eu apertei com tanto vigor que suas mãos doeram. Eu sou o tipo de pessoa que tem dificuldade pra abrir vidro de geleia. De onde tirei força pra esmagar as mãos do Marco?

A quem me pergunta sobre o medo, a dor e as sensações do parto, tento responder que cada pessoa vive à sua maneira essa experiência. E que podemos sempre nos surpreender com a força e a coragem que vive dentro da gente.

O PARTO, COMO EU IMAGINAVA

seria na água. Gosto muito de água, acreditava que seria um bom meio de transição para x bebê. Assisti vários vídeos de partos em banheiras. Assegurei-me que poderia ter uma na casa de parto.

Também imaginava um trabalho de parto longo. Muitas contrações espaçadas; eu poderia dormir entre elas. Talvez durasse mais de um dia… estava pronta pra enfrentar uma maratona.

Levei umas garrafas de água de coco na mala. Queria tomar algo de gostoso e nutritivo durante o trabalho de parto; hidratar e dar um gostinho de coco àquele momento.

Pensava que iria chorar muito ao ver x bebê, assim como eu chorava lendo e vendo vídeos de parto.

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No fim das contas, Francisco nasceu na cama da sala de parto. Poderia ter sido de cócoras; mas na hora, improvisei ficar de quatro apoios — de acordo com o que sentia naquele momento. Nem foi possível cogitar a banheira porque chegamos na casa de parto com dilatação total e quase coroando. Tive contrações pouco espaçadas, não dormi. Foi muito rápido, tudo aconteceu em seis horas. Só comi uma banana durante esse tempo. A água de coco ficou lá esquecida na mala. Não chorei ao ver o Francisco; estava radiante de alegria. Fui chorar só dias depois, ao voltar pra casa e quando recebemos a certidão de nascimento.

Entre o planejado e a realidade, o mais importante foi ter-me preparado para o imprevisível.

UMA FOTO MINHA, DE 2010

DSCN2673me chamou a atenção, dia desses; ultimamente tenho reaberto muitas pastas de fotos, no computador, no disco de backup, no flickr, por aí. Fui olhar para mim no passado, para os passeios que fazia, as pessoas com quem me encontrava, as atividades de que participava, os lugares que me interessavam.

Alguém, não sei mais quem, tirou essa foto de mim, com a minha câmera nikon que me acompanhou durante uns cinco anos. Foi a primeira digital, num tempo em que não valia a pena tirar foto com o celular. Estava me apresentando no encontro de francês, na faculdade, em outubro de 2010. Participava de uma mesa intitulada “Autobiografia e mulheres”. Na verdade, minha pesquisa trabalhava pouquíssimo, senão nada, com a questão feminina. O “mulheres”, no meu caso, poderia se referir ao fato de eu ser mulher, talvez — de que eu pesquisasse sob um ponto de vista feminino. Digo isso porque eu estudava um crítico francês, seus textos, principalmente aqueles em que ele falava de outros homens: Rousseau, Leiris, Gide. Também textos de outros homens críticos — Starobinski, Poulet, Raymond — falando também de outros homens: Rousseau de novo, Sartre, entre outros.

Fui reler o texto da apresentação. Sempre tive dificuldades, por conta do tempo limitado para falar; da fala contínua de 15 ou 20 minutos sem interrupção. E o texto para os anais parece mais estranho ainda, visto o limite de páginas, somente duas. Consigo até entender o que eu quis transmitir, mas duvido daquilo que quem lê compreenda.

Sobre a foto, ela me faz lembrar como eu estava naquela época. Tinha emagrecido bastante, depois de uma época mais cheinha. Agora pensando, talvez tivesse engordado antes por conta de um tratamento a base de antibiótico forte, para aliviar um problema de pele. Será, faz sentido essa relação? Estaria eu vivendo o retorno de Saturno, mudança de setênio, coisas que conheço superficialmente?

Estava quase toda de preto, blusa de alcinha, saia cinza bem escura, meia calça. Reconheço os sapatos que estava usando, redondinhos na frente e baixos.

Imprimi o texto em folhas de sulfite verde claras, como eu gostava de fazer. Usava fonte cinza, para dar baixo contraste. Com certeza também tinha escrito algo num caderninho. Poucas vezes usei power point para me apresentar, só quando muito necessário, para mostrar fotos ou imagens.

Dois anos depois, em outubro de 2012, estava defendendo a dissertação. Desse ponto até lá, tanta e tanta coisa mudou. Eu quase não falava mais das fraturas que estavam tão presentes em 2010 — elas praticamente sumiram no texto final. Espero ter me tornado um pouco menos enigmática, mas não de todo.

AMAMENTAR, NO PRIMEIRO MÊS

é bem difícil: mas, se tudo correr bem nesse primeiro momento, você pode ter certeza que vai dar tudo certo daí pra frente — foi isso o que me disse uma consultora de amamentação, quando veio me visitar.

Escutar isso me deu muita força. Fazia uns dias, uma dor forte surgiu, no seio esquerdo. Logo depois, uma ferida foi se abrindo no mamilo. Estava triste e precisava de uma orientação.

Tudo o que eu quero é amamentar. Dava o peito, mesmo com a dor. O receio era a ferida piorar e eu ser levada a interromper a amamentação. Não queria nenhum substituto ao peito, que poderia levar ao desmame. O Francisco mamava muito e eu me perguntava se os seios resistiriam às longas mamadas.

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Primeira coisa: se apareceu alguma ferida, é porque a pega não está correta. Pois é, eu controlava tanto a pega no começo… mas tinha desencanado. Corrigir esse problema foi o primeiro passo.

Além disso, a consultora recomendou repouso ao máximo. O Marco se ocupou de grande parte das tarefas da casa. Amamentar deitada: ela me incentivou a essa posição, que eu achei ótima. Até então eu ficava sentada, o que me deixava bem cansada. Em suma, continuar firme na amamentação, em livre demanda.

Para cuidar da ferida, passar chá de sálvia, depois enxaguar. Ficava um bom tempo com os peitos de fora. Passava o próprio leite e deixava secar.

Mesmo assim, após alguns dias recorri àqueles bicos de silicone que protegem o mamilo durante a mamada. Não são recomendados, mas foi algo que ajudou durante um curto tempo, até a ferida fechar. O Francisco estranhava o bico, rejeitava, mas no fim mamava. Eu mesma não queria que ele se acostumasse, ainda bem que realmente ele preferia sugar direto o peito!

Também tentei bombear o leite com uma maquininha, mas não gostei da experiência. Pessoalmente, acho preferível a ordenha manual.

A ferida sarou, em poucas semanas. Estamos firmes e fortes no mamá, sempre que a gente quiser; felizes por termos superado um pequeno obstáculo em nossa estrada.

AMAMENTAR, NO COMEÇO

é algo absolutamente novo, num momento de transformação radical; talvez por isso também seja difícil, cansativo e desafiador. Já tive contato com várias histórias de amamentação — muitas delas trazem esse elemento de dificuldade.

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No que toca ao Francisco e a mim, posso dizer que enfrentamos alguns poucos obstáculos. Há sempre um controle do peso do bebê nos primeiros dias de vida. É normal que percam um pouco do peso inicial, mas não em demasia. Felizmente a perda de peso foi mínima depois dos três dias na casa de parto.

Logo que nasceu, o Francisco veio pro meu peito, mas não mamava. Dava uns suspiros e descansava. Almocei, dormimos e logo depois, hora do peito.

Sabia que a sucção estimula a produção de leite, que chegaria no dia seguinte. Naquele momento, saía colostro, super importante para o bebê. Eu o deixava mamar muito tempo… além do que me recomendaram. Diziam 20 minutos. Mas ele ficava no peito até eu cansar — ou ele cair realmente no sono e largar.

Sim, dar de mamar era cansativo; eu tinha dores nas costas e nos braços, suava como se estivesse fazendo fitness ou uma arte marcial. Lembrava das minhas primeiras aulas de kung fu… desajeitada e dolorida, mas bem feliz.

Tentei todo tipo de posição para amamentar. É bom ir variando mesmo. Era preciso ficar de olho em tudo: massagear os seios para não deixar empedrar; atentar para os mamilos; respirar com calma; não tensionar as costas; encontrar um apoio para as pernas…

Eu vivia um mar de sensações novas e além disso precisava guiar o Francisco: segurá-lo bem em meus braços, apoiar a cabeça, acertar a pega do seio, incentivá-lo a mamar. Às vezes parecia que ele buscava o seio em outra direção, meio perdido. Cabia a mim ter a calma e me antecipar ao choro — pois o choro é sinal tardio de fome. Eu observava muito seus movimentos para reconhecer a sua vontade de mamar. Até hoje, ele não é de chorar tanto. Busca o peito, se mexe bastante, fala mamama quando quer peito.

Os seios sofriam com o mamar. Para aliviar, ficava sempre que possível com os peitos de fora. Deixava uns 15 minutos tomando um sol. Descansava, dormia. Pomadas não são recomendadas, mesmo assim usei uma totalmente natural, durante um tempinho.

Quando o leite desceu e os peitos ficaram pesados e quentes, coloquei umas folhas de repolho branco geladas dentro do sutiã. Ufa, foi valiosa essa dica!

Depois da primeira semana, parecia que tudo estava indo bem. Eu apoiava os braços e o Francisco numa almofada de amamentação. Ele dormia, eu até aproveitava pra ler ou ver o noticiário. Mas eis que uma dor foi aparecendo no seio esquerdo… sobre isso falo no próximo post.

UMA CONEXÃO EM CHICAGO

de mais de seis horas: era uma boa oportunidade para sair do aeroporto e fazer uma visitinha rápida pela cidade.

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Era bem de manhãzinha, sábado, verão. Peguei o metrô, linha azul.

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Quando achava alguma estação interessante, descia do metrô e tirava umas fotos da paisagem que se poderia ver da plataforma. Quase toda a linha era aérea. Lembro de poucos trechos subterrâneos. Hoje pensando, por que simplesmente eu não fui conhecer o centro da cidade? Seria a escolha mais óbvia.

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Até de uma das estações podia avistar o centro.

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Ao mesmo tempo, era legal avistar um pouco da vida da cidade, lá do alto da plataforma. O dia estava começando, o calor prometia.

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Na verdade, eu estava curiosa pelo nome da estação e de uma avenida, Cicero — é como se chama um grande amigo. Nem me dei ao trabalho de espiar pelo Street view. Fui às cegas passear pela Cicero Avenue.

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Lá chegando: tudo meio deserto. Esperava uma via movimentada, com comércio. Até pensava em comprar um notebook — estava precisando, tinha que terminar um trabalho para a faculdade durante a viagem. Mas que nada. A avenida era calma, terrenos baldios, lojas fechadas. Os EUA tinham acabado de viver aquela super crise.

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Resolvi continuar por aquela larga via, sob o sol que ia esquentando. De repente, do outro lado da rua, um moço grita olhando pra mim: — HEY, WHITE GIRL!

Ops, dei-me conta, então, de que todas as pessoas que caminhavam pela rua eram negras. Estaria em meio a um bairro negro ou coisa do tipo. Em seguida, percebi que eu era branca. Sei lá, pensei, mas eu não seria latina, pelo menos? O que devo fazer, ir embora daqui?

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Já cansada de tanto andar em linha reta naquela longuíssima avenida, dei meia volta, em direção ao metrô. Sentada perto da janela, admirava um pouco mais a vista. Resolvi ir para o aeroporto, sem parar no centro nem em outro lugar. Lá, compraria um sanduíche, um suco, e esperaria pelo vôo em direção a Québec, onde me esperavam outras histórias.