SLINGS

sempre me fascinaram, pela extrema simplicidade: um pedaço de pano que envolve o bebê junto ao corpo da mãe ou pai (ou outro adulto). Acompanhando a ervilha cor de rosa, blog de Rosa Pomar, já muitos anos atrás, percebi que é um modo de carregar bebês que favorece a proximidade, auxilia a criação de vínculo — além de ser extremamente prático. Os carrinhos, mais comuns hoje em dia em algumas partes do mundo, surgiram num momento em que a criação dos filhos passou a ser delegada a babás; a partir da inserção do carrinho, a distância corporal entre o bebê e o adulto foi aumentando.

Vale a pena conhecer a pesquisa e a experiência de Rosa Pomar sobre slings (que admiro também por seu trabalho em torno da produção de lãs e fios, do tricô, da fabricação de bonecos…), percorrendo todos os posts sobre o assunto.

Foi justamente da Retrosaria (loja dela) que comprei o primeiro sling; recebi pelo correio (quando for algum dia a Lisboa visito pessoalmente!). Trata-se de um pouch sling, modelo simples, sem nós ou argolas, lindo, dupla face, com jeans e tecido africano. Assim que chegou, fui testando, ainda no começo da gravidez.

Mas não me contentei somente com um modelo. Gentilmente, um amigo me presentou com outros dois: um wrap e um de argolas, daqui. Pronto, estava equipada com três tipos diferentes! Pesquisei muito na internet, li blogs, assisti vídeos ensinando a colocar o bebê em função de seu tamanho. Os recém-nascidos precisam de mais apoio para a cabeça, que não sustentam ainda sozinhos. A posição do joelho e das pernas é muito importante, para não causar problemas nas articulações. Também não é indicado carregar o bebê virado para fora. Há também outros tipos de sling, além daqueles que escolhi. Indico os posts do mamaé, os textos do slingando e a seleção temática sobre slings no mamatraca. Como se pode ver, quem fala sobre slings são mães e pais que resolveram adotá-lo na criação de seus filhos; interessaram-se tanto pelo assunto que passaram a pesquisar e fabricar seus próprios slings.

Assim como quando escrevi sobre fraldas de pano, ressalto que este não é um post patrocinado, mesmo que eu esteja mencionando produtos e lojas.

No próximo post, trato da experiência nossa com os slings. Por ora, recomendo a leitura do texto “Crianças proibidas de ver”, de Fernando Reinach, publicado originalmente em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,criancas-proibidas-de-ver,1011295,0.htm. Acho tão interessante que o copio aqui um longo trecho, coisa que não faço normalmente — e acreditando que é mais indicado ler a coluna integralmente, no endereço acima. Mas vai que esse texto fique fora do ar, pelo menos aqui tem uma versão dele… Fica para pensar se a comodidade do carrinho (do ponto de vista dos adultos) beneficia e compensa realmente, quando nos colocamos no ponto de vista da criança.

A imagem abaixo é do livro de que fala Reinach, “The world until yesterday”; na capa, temos justamente um bebê sendo carregado nas costas de uma mulher.

*

Nas sociedades tradicionais, as crianças, antes de aprenderem a andar, são carregadas pelas mães. Em todas as culturas tradicionais, logo que a criança consegue firmar o pescoço, ela é transportada na posição vertical. Pode ser nas costas ou na frente da mãe, seja com o auxílio dos braços ou utilizando dobras das roupas ou artefatos construídos para esse fim. 

Nessa posição, o campo visual da criança é aproximadamente o mesmo da mãe. Ela olha para a frente e pode observar todo o ambiente em sua volta praticamente do mesmo ângulo e da mesma altura da mãe. O horizonte, as árvores, os animais e seus movimentos são observados pela criança da mesma maneira que a mãe observa seu ambiente. Quando um pássaro canta e a mãe vira a cabeça para observar, a criança também tem uma chance de associar o canto do pássaro à sua plumagem. A criança observa o trabalho de coleta de alimento da mãe, como ela prepara a comida, o que a assusta, o que provoca o riso ou a tristeza na mãe. Carregar uma criança na posição vertical faz parte do processo de educação.

Isso era ontem. E como é hoje? Inventamos o carrinho de bebê. As crianças menores são transportadas deitadas de costas, olhando para o céu (ou para a face da mãe). A criança não compartilha a experiência visual da mãe, não consegue associar as expressões faciais da mãe a objetos e sentimentos. Os sons ouvidos pela criança dificilmente podem ser associados a experiências visuais, atividades ou sentimentos. Deitadas, as crianças modernas só observam o teto (dentro de edifícios) ou o céu (ao ar livre). 

Como o céu é claro e incomoda a vista, muitos desses carrinhos possuem uma coberturas de pano, o que restringe ainda mais o campo de visão e empobrece a experiência visual da criança. Não é de espantar que um bebê, cujos ancestrais foram selecionados para aprender a observar o meio ambiente desde o início de sua vida, fique entediado. Mas para isso temos uma solução moderna: uma chupeta que simula o bico do seio da mãe. Hoje, carregar uma criança é considerado um estorvo, mas nossa nova solução distancia fisicamente a criança da mãe e não permite que elas compartilhem experiências sensoriais. Transportar uma criança deixou de fazer parte do processo educacional.

Hoje sabemos que o desenvolvimento do córtex visual, a parte do cérebro que processa imagens, não termina durante a vida fetal, mas continua após o nascimento e depende do estímulo visual constante para amadurecer. Os carrinhos de bebê de hoje são mais novos, mas será que são melhores?

É incrível, mas hoje, numa época em que educar para o futuro é o lema de toda escola, numa época em que tentamos alfabetizar as crianças cada vez mais cedo, abandonamos o hábito milenar de permitir que as crianças olhem para a frente e compartilhem as experiências vividas por suas mães.

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