O CORPO TODO AMAMENTA

foi o que senti desde o começo. O meu corpo todo estava dedicado àquela atividade: dar de mamar; e não somente o corpo mas a mente também. Dar. Dar o seu tempo, a sua atenção, os seus pensamentos, os seus sentimentos e expectativas. Amamentação é sobretudo entrega. Já ouvi dizer que seria uma prolongação da gravidez, mas mais que isso.

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O bebê é pequeno, magrinho. Eu o observava, cada pequeno movimento, para identificar os sinais da fome. Colocava pertinho de mim. Mas como, de que lado? Onde posiciono os seus bracinhos? E a cabeça? Mais pra cima, mais pro meio? Onde é melhor: no sofá, na cadeira, na cama? O bebê se debate, fica ansioso. A mãe, desajeitada, compartilha a ansiedade. O coração bate depressa. Vem o choro. Vem a preocupação. Estou fazendo certo? Ele está pegando o peito direitinho? Está realmente saindo leite do peito?

Para o bebê, é tudo ou nada. Mamar é questão de vida ou morte. Fome, essa coisa que ele sente só agora, aqui fora. Ainda tem a lembrança daquela vida lá dentro da mãe: não respirava, não tinha frio, não tinha vazio. Fora é a enorme claridade, o ar que entra e sai do corpo, a barriga que pede leite. Mas não só leite. Acima de tudo, ele quer aquele corpo de volta, aquele corpo que não é mais seu. A mãe. Ele quer a mãe, quer olhos nos olhos, quer tocá-la, quer sentir a pele, a voz, o cheiro.

O bebê pede pra mamar quando você está almoçando, quando você precisa ir ao banheiro, quando o zelador toca a campainha, quando o carteiro está entregando um pacote pesado, quando você está dormindo. Quanto leite ele deve beber, por quanto tempo ele vai mamar? Essas perguntas não significam nada para o bebê, que não conhece tempo, que não conhece quantidade.

Há toda uma dimensão selvagem da amamentação que é simplesmente deixada de lado. Esquecemos que somos animais, que somos mamíferos… e que dar de mamar não se resume somente a alimentar.

A sensação da primeira sugada é estranha e ao mesmo tempo maravilhosa. Ao longo dos minutos de mamada, o corpo todo dói. Os braços segurando o bebê. As costas, sentada numa mesma posição minutos a fio. E os seios, é claro, delicados e ao mesmo tempo poderosos.

Eu olhava para o relógio e via as horas passarem. Meu corpo ali, sentado, com o Francisco nos braços.

Repetindo o que já disse, é uma entrega; e eu me entregava, de corpo e mente.

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