Arquivo do mês: janeiro 2014

O QUE COMER DURANTE A AMAMENTAÇÃO?

essa pergunta me vinha à mente todo o momento, nos primeiros dias. Eu já sabia que o sabor do leite materno muda em função daquilo que a mulher come, mais doce, mais salgado. Além disso, se o alimento prende ou solta mais o intestino, se provoca mais acidez, eram detalhes que eu tinha ouvido falar. A parteira, por exemplo, logo me disse para eu não tomar suco de laranja, ou poderia provocar uma diarreia no Francisco; nem poderia comer pêssego, damasco ou ameixa, porque dariam dores de barriga. Com o passar dos dias, percebia que uma cólica vinha logo pela manhã — um incômodo antes de fazer cocô. Ele acordava reclamando de dor e se contorcendo. Isso era uma razão e tanto para ficar atenta ao que eu comia.

Outro fator: batia uma fome grande, muitas vezes ao dia. Era uma fome mais forte do que aquela da gravidez. Eu já acordava na madrugada para ir comer algo, quando grávida. Amamentando, então, virou uma regra.

Agora, aos quase seis meses de amamentação, essa super larica já diminuiu (acredito também que era um pouco de ansiedade, confesso…). Mas, nos primeiros meses, eu comia muito e, ao contrário do que se espera — que amamentar em livre demanda faz a pessoa emagrecer muito rápido — não perdi um quilo sequer até o momento. Somente depois que o Francisco começar a desmamar (sabe-se lá quando, é coisa pra nós dois decidirmos) é que vou começar a pensar em comer menos, para perder os quilos da gravidez.

Voltando ao início, quando eu me perguntava o que seria ideal comer: naquele momento, não conhecia esse texto, publicado no gva (grupo virtual de amamentação) do facebook. Aliás, vale muito a pena entrar no grupo para ter acesso a vários textos sobre amamentação. Recebi uma lista da casa de parto, bem simples, que vale a pena compartilhar aqui:

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– comer alimentos com pouca gordura e pouco sal (eu praticamente tirei o sal da comida, tempero levinho com manjericão, orégano, azeite de oliva); preferir integrais.

– evitar: feijão, vagem, couve flor, ervilha, repolho, alho poró, pimentão, cebola, aspargos, alho; entre as frutas, abacaxi, morango, laranja, pêssego, damasco, ameixa, uva, limão, nem os sucos dessas frutas.

– o que comer? beringela, couve de bruxelas, cenoura, beterraba, espinafre, abóbora, abobrinha, tomate, alface; dentre as frutas, maçã (cozida ou assada de preferência) banana, pêra, amora, framboesa, kiwi.

– desde a gravidez, deixei de lado o café, chás com cafeína, sucos industrializados; doces vou tentando evitar!

– água, sempre, e principalmente durante a mamada.

– quinoa; não estava na lista que recebi, mesmo assim estamos investindo muito nela! eu cozinho simples, na água (400g para 1 litro de água), depois vou adicionando outros legumes, peixe, tempero; rende para quase todos os almoços da semana. trigo ou lentilha eu percebi que davam mais cólica no Francisco, por isso vamos consumindo mais moderadamente.

Procurando na internet, não se encontra um consenso a respeito da questão. De qualquer maneira, é interessante ficar de olho no que se come. Tenho observado, comigo e com o Francisco, que há uma relação entre o que como e sua digestão. Mesmo já com seus cinco meses e um intestino mais desenvolvido, ele sente mais dificuldade pra digerir meu leite depois de eu ter comido algo mais pesado. É uma coisa para acompanhar, caso a caso.

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COISAS QUE APRENDEMOS COM O FRANCISCO

nesses primeiros meses– e vejo que são lições para todo o tempo que temos pela frente:

[esse post é uma lista — como tantos outros; tantas listas de tantas coisas se espalham na internet todo dia… por isso, não me aprofundei em nenhum dos itens. fica para oportunidades futuras falar mais sobre cada uma das questões que levanto]

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Tudo é imprevisível: a que horas ele dorme? quantas fraldas sujas por dia vocês lavam? (sim, temos fraldas de pano! falarei mais disso em outro momento) quantas vezes mama? durante quanto tempo? — nenhuma dessas perguntas tem resposta definida. No começo pensava: “depois dessa mamada ele vai dormir, aí eu poderei tomar um banho rápido, depois preparo a comida…” ou “vamos passear agora de tarde, aproveitar esse sol bonito” (sobre a dificuldade em sair de casa, me identifiquei muito com esse texto, por mais que tenhamos um bebê e não temos cachorro). Doce ilusão. Nenhum plano desse tipo funcionava. O bebê tem seus ritmos. Difícil controlar ou prever o que quer que seja.

Rotina, adaptação? O que significam essas palavras? Como diz a canção, “tudo muda o tempo todo no mundo”. Não se passaram nem seis meses, e já é difícil dizer o quanto a vida mudou de lá pra cá… e não para de mudar. Hoje o Francisco começa a dar uma risadinha fofa. Amanhã a risada já é outra. Nos primeiros meses, as cólicas incomodavam. Passado aquele tempo, vem as coceiras na gengiva. E vai saber se as cólicas não voltarão, quando ele começar a comer! Enfim, a lista poderia se estender…

A vida tem suas fases. O recém-nascido passa por várias delas, num curto espaço de tempo. Isso eu já vinha percebendo desde o comecinho: havia semanas com mais sono, outras com menos sono; depois uma outra semana super sensível e apegado a mim; em seguida, outras semanas muito independente. Só depois fui descobrir esse valiosíssimo texto sobre os picos de crescimento e fases de desenvolvimento do bebê. Tudo ficou claro, então! É um texto pra ler várias vezes, a cada nova fase.

A paciência está relacionada ao item acima. Tudo passa, é um momento. Tomemos o exemplo das cólicas: o Francisco teve aquele tipo de cólica de gases; todo começo de dia, pelas 7h da manhã, lá vinha a dificuldade em mandar pra fora os gases e o cocô. Muita massagem, muito colo, muito peito e junto com tudo isso: paciência. A gente só consegue transmitir calma se nós mesmos estivermos calmos.

Tolerância: um bebê é uma enorme maravilha; mas todo pai e toda mãe enfrenta seus problemas, cada um ao seu modo. Aprendi muito a respeitar e julgar menos os outros, desde que o Francisco nasceu. Mas isso não quer dizer que eu aceite que os outros me julguem ou critiquem a nós gratuitamente. Para dialogar, não é preciso compartilhar das mesmas visões de mundo e valores. Falo um pouco sobre isso aqui.

A força da vulnerabilidade: quer coisa mais frágil e mais vulnerável que um bebê? E já parou para perceber que força tem os bebês? Quando estava grávida, vi esse vídeo, que me tocou muito. Dá até vontade de ler sobre a pesquisa dela. A cada dia que passa faz mais sentido para mim. A vulnerabilidade, como ela define, nos permite amar sem esperar retorno, nos tira a preocupação de controlar ou prever o que quer que seja, nos motiva a procurar uma conexão com o mundo — tudo a ver com os outros pontos que estou listando aqui.

Somos pessoas importantes: a gente pode pensar em ser mãe ou pai somente em termos de “responsabilidade”, de “exemplo”. Acredito que não se resume a isso. Ter o Francisco perto de nós nos faz querer ser pessoas melhores, cada vez mais. Como já disse acima, como posso transmitir calma ou felicidade a alguém se eu mesma não me sentir calma e feliz? Esse assunto é longo, vai reaparecer em outros posts meus! Por ora, a lista se encerra aqui :)

O CORPO TODO AMAMENTA

foi o que senti desde o começo. O meu corpo todo estava dedicado àquela atividade: dar de mamar; e não somente o corpo mas a mente também. Dar. Dar o seu tempo, a sua atenção, os seus pensamentos, os seus sentimentos e expectativas. Amamentação é sobretudo entrega. Já ouvi dizer que seria uma prolongação da gravidez, mas mais que isso.

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O bebê é pequeno, magrinho. Eu o observava, cada pequeno movimento, para identificar os sinais da fome. Colocava pertinho de mim. Mas como, de que lado? Onde posiciono os seus bracinhos? E a cabeça? Mais pra cima, mais pro meio? Onde é melhor: no sofá, na cadeira, na cama? O bebê se debate, fica ansioso. A mãe, desajeitada, compartilha a ansiedade. O coração bate depressa. Vem o choro. Vem a preocupação. Estou fazendo certo? Ele está pegando o peito direitinho? Está realmente saindo leite do peito?

Para o bebê, é tudo ou nada. Mamar é questão de vida ou morte. Fome, essa coisa que ele sente só agora, aqui fora. Ainda tem a lembrança daquela vida lá dentro da mãe: não respirava, não tinha frio, não tinha vazio. Fora é a enorme claridade, o ar que entra e sai do corpo, a barriga que pede leite. Mas não só leite. Acima de tudo, ele quer aquele corpo de volta, aquele corpo que não é mais seu. A mãe. Ele quer a mãe, quer olhos nos olhos, quer tocá-la, quer sentir a pele, a voz, o cheiro.

O bebê pede pra mamar quando você está almoçando, quando você precisa ir ao banheiro, quando o zelador toca a campainha, quando o carteiro está entregando um pacote pesado, quando você está dormindo. Quanto leite ele deve beber, por quanto tempo ele vai mamar? Essas perguntas não significam nada para o bebê, que não conhece tempo, que não conhece quantidade.

Há toda uma dimensão selvagem da amamentação que é simplesmente deixada de lado. Esquecemos que somos animais, que somos mamíferos… e que dar de mamar não se resume somente a alimentar.

A sensação da primeira sugada é estranha e ao mesmo tempo maravilhosa. Ao longo dos minutos de mamada, o corpo todo dói. Os braços segurando o bebê. As costas, sentada numa mesma posição minutos a fio. E os seios, é claro, delicados e ao mesmo tempo poderosos.

Eu olhava para o relógio e via as horas passarem. Meu corpo ali, sentado, com o Francisco nos braços.

Repetindo o que já disse, é uma entrega; e eu me entregava, de corpo e mente.

OS TRÊS DIAS NA CASA DE PARTO

foram muito bons, principalmente pelo fato de que pude me concentrar no Francisco, dormir bastante e com toda a calma começar a amamentar, afastada dos afazeres de todo dia. Ao contrário de um hospital/maternidade, nós três, Francisco, Marco e eu, dormimos juntos, na mesma cama aliás.

Como o nome já indica, estávamos em uma casa, sob a gestão de parteiras. A comida era feita ali, alguns dos vegetais vinham da horta. Fazíamos as refeições juntos, todas as mulheres que tinham parido nos últimos dias, os maridos, alguns dos filhos inclusive. Do quarto era possível escutar os choros dos outros bebês, e mesmo os gritos das mulheres em trabalho de parto. Era, por isso, um lugar de convivência, sem a privacidade e impessoalidade que predomina em um hospital, mais amplos — com mais pacientes — e com mais trocas de turno de funcionários. Lembrava sempre de um trecho do relato de parto de Laura Gutman, em seu livro A maternidade e o encontro com a própria sombra; ela, ao presenciar o parto de outra mulher, conseguiu dar andamento ao seu próprio.

No primeiro dia, logo depois do parto nós dormimos e assim que o Francisco acordou uma das parteiras veio me instruir sobre como dar de mamar. Elas se preocupavam com o peso dele, temiam que ele perdesse ainda alguns gramas. Não só por isso, mas para manter o vínculo, deixava o Francisco quase o tempo todo no seio, dando uma pausa para comer ou dormir (esqueci de levar o sling dentro da mala…) . Ofereceram um tipo de vitamina que “reforçaria” o leite: eu deveria dar uma mamadeira a ele com essa vitamina depois do leite.

— O quê? Mamadeira? Não, eu não quero dar mamadeira pro meu filho. Ele vai confundir os bicos e deixar de mamar no meu peito.

— Isso não existe, confusão de bicos é psicológico.

Confusão de bicos não é psicológico — mamadeira desestimula a amamentação, de um jeito ou de outro. Outro problema grave é o mito de que o leite materno não é suficiente para o bebê. Eu, sem querer argumentar muito, recusei. Já não era a primeira vez que eu recusava algo (é só lembrar do remédio pra dormir no começo do trabalho de parto). Também recusei gentilmente o “presentinho” que dão a todo bebê: uma chupeta, amarrada num cordãozinho com o nome dele. Arrumei uma tesoura, deixei a chupeta e levei o cordão pra casa, porque era fofinho. Mas como podem presentear algo que comprovadamente causa problemas de todo tipo na criança? Numa tacada, fomos confrontados com vários dos fatores que afetam a amamentação…

O leite desceu entre o segundo e o terceiro dia. O cocô já não era mais o mecônio escuro, mas aquela clássica pastinha amarela, uhu! sinal de que estava correndo tudo bem. A pediatra examinou-o no segundo dia — foi o único contato com um médico naqueles dias lá. No terceiro, uma enfermeira me deu muitas dicas para cuidar dos seios, que já estavam super carregados: folhas de repolho branco geladas dentro do sutiã, chá de sálvia para limpar e desinfetar naturalmente os mamilos; além de massagem, repouso e seios ao ar livre sempre que possível.

Lá o Francisco tomou banho naquele maravilhoso balde, no terceiro dia. Fiquei maravilhada! Ele parecia flutuar lá dentro… — Quero dar banho nesse balde em casa também! Logo que voltamos para casa, o Marco foi correndo comprar um balde. Banho de balde é tudo de bom.

Balanço: dentre as opções que tínhamos, a cada de parto foi a melhor de todas. Gostamos muito de podermos ficar o tempo todo juntos, num quarto só, dormindo, escutando música, recebendo as visitas. E junto também de outras mães e bebês, vivendo experiências próximas. Mas isso não quer dizer que seja perfeita. Desagrada o fato de terem recomendado mamadeira e chupeta. Coube a mim, é claro, nos defender e recusar. Mas fico pensando em quantas mães aceitam, por falta de informação, e como isso pode interferir negativamente na amamentação e em todo o vínculo entre mãe e bebê.

A questão é, independente de como ou onde é possível parir, o importante é ter-se informado muito bem, previamente, sobre os procedimentos de rotina do lugar (havíamos feito duas visitas à casa antes do parto). E, mais do que isso, ter muito firmes seus princípios. Quer realmente um parto normal? Quer realmente amamentar em livre demanda? Então informe-se e mantenha-se firme, recuse o que vai contra o que pensa e defende. O pós-parto é um momento muito delicado, em que muitas escolhas e convicções importantes podem ser deixadas de lado mais facilmente do que se imagina…

HOSPITAL OU CASA DE PARTO?

— visitar ambos os lugares foi essencial para nos decidirmos. Eu já tinha mais simpatia pela ideia da casa de parto; com uma gravidez sem qualquer risco (o que é o caso da maioria das grávidas, diga-se de passagem), poderia de cara optar por ela, mas por via das dúvidas programamos de visitar os dois locais.

O hospital oferece uma apresentação de suas instalações a cada dois meses. Era um dia de semana, terça, acho, por volta das 19h. Havia uns 200 casais, num enorme auditório. À frente, a GO chefe, o pediatra chefe, uma parteira, uma secretária. Cada um deles falava junto a uma apresentação em power point, em que predominavam as piadinhas. “Queremos causar uma boa impressão em vocês”, dizia o primeiro slide, lembro bem. Boa impressão?!

A GO chefe mostra gráficos; o hospital tem, segundo ela, baixos índices de cesárea: 30% — mas não explica, é claro, que a OMS recomenda 15% de cesáreas no máximo. Episiotomias: 30% dos partos normais. Uso de fórceps: 30%. Partos sem essas intervenções: outros 40% — mas ela não esclareceu, obviamente, o que é episiotomia. Quem não sabe também não levantou a mão para perguntar. Nem se questionou se realmente esses procedimentos são rotina ou apenas para casos extremos. Ou se há alternativas. E vamos aos próximos slides.

Num deles, fizeram outra recomendação que me desagradou muito: “Não leia tanto! Informação pode deixar as pessoas inseguras e confusas; a internet não oferece dados confiáveis”… aham. Comigo não rola esse papo.

O pediatra fala somente de um assunto: as vacinas, como elas são importantes. Cita as vacinas recomendadas, as datas em que são aplicadas. Mais nenhum outro assunto. Como assim, ele não falou nada a respeito dos cuidados com o recém-nascido? O que fazem com o bebê logo que ele nasce? Quais os procedimentos do hospital? Nada.

A secretária diz que é possível realizar um ensaio fotográfico com o recém-nascido já no hospital. Acrescenta que o casal pode escolher um cardápio especial de jantar na noite depois do parto. Fiquei pensando: — onde está o bebê durante o jantar? chorando no berçário?

Depois das apresentações, pudemos conhecer as salas de parto e os quartos de um andar do hospital, todo vazio, reservado para a visita. Também serviam canapés, sucos, frutas.

A casa de parto recebe interessados todo sábado, com visita agendada. Lá, nos receberam uma parteira e uma enfermeira. Éramos dois casais no total. Visitamos todas as instalações (e não somente um andar…), salas de parto, quartos livres, cozinha, sala de jantar. Conversamos sentados numa mesa, tirando dúvidas, resolvendo curiosidades. Vocês cortam o cordão umbilical em que momento? O que vocês fazem com a placenta? De que maneira aplicam vitamina K no bebê? Que recursos existem para aliviar as dores? Vocês lavam as nossas roupas? Posso fazer acupuntura nas

Elas não tinham gráficos para mostrar a incidência de episiotomias ou cesáreas. Mas disseram que lá acontecem em torno de 200 partos por ano e nesse período 4 mulheres foram levadas ao hospital porque não conseguiam dar andamento ao parto ali — uma porcentagem razoavelmente baixa.

Em resumo: no hospital, uma equipe grande falando a um auditório vasto, sobre assuntos amenos (fotos, jantar, piadinhas, regados a suco de fruta); mas pouco espaço para as questões importantes do parto. A ideia que paira, ao meu ver, é de delegar tudo aos médicos, às autoridades — algo como: “para que é importante saber o que significa episiotomia? melhor nos deliciarmos com um jantar especial e tirarmos belas fotos do bebê… os médicos e enfermeiras cuidam do resto”.

Na casa de parto, pouca gente, muita proximidade; uma equipe pequena que te chama pelo nome. Sentimos que havia espaço para se expor, para se sentir acolhido. Não evitaram de falar sobre os detalhes do andamento e duração do parto, os cuidados com o corpo. E que, fundamentalmente, uma casa de parto é dirigida por parteiras. Lá as mulheres não são pacientes. Isso já se relaciona com a própria maneira de encarar o parto — não se trata de uma intervenção médica, mas de um evento da vida.

Não haveria muita diferença em termos de custo. Uma casa de parto não cobra mais caro, ao contrário do que se pensa.

Como falarei mais adiante, a casa de parto também tem seus pontos fracos. Independente da escolha, o importante é que a mulher se informe muito, sobre o andamento do parto, sobre os procedimentos. É recomendável fazer um plano de parto e encaminhar para a instituição ou para a equipe que realizará o parto domiciliar.

TÃO LOGO CHEGAMOS NA CASA DE PARTO [relato de parto, 3/3]

a parteira fez o exame de toque e surpresa: dilatação total! inacreditável, eu achava. Mas já? Eu queria entrar na banheira, cantar músicas, até dormir entre uma contração e outra, como tantas outras mulheres contam que fizeram. Que nada! Tudo o que eu tinha que fazer era pressão a cada contração. 

Imagine, o Marco nem tinha descarregado ainda a mala do carro. Quando ele volta já escuta a parteira chamando o resto da equipe: – Vem gente, vai nascer agora!

Escolhi ficar de quatro, nas contrações arqueava as costas (uma postura da ioga, eita como foram boas aquelas aulas). Deu sede, me trouxeram água, que eu tomava de canudinho. Ainda bem que logo de cara a parteira percebeu que não precisava de cardiotoco e me tirou aquela coisa da barriga que me poderia tirar a concentração.

Foram talvez quatro contrações, entre elas pude colocar a mão na região do períneo e sentir a cabeça do bebê prestes a sair. Segurava fortíssimo as mãos do Marco e ali eu realmente senti o que chamam de círculo de fogo. Eu gritava muito, com todas as minhas forças, dizia ao Marco: – tá queimando! Sentia também todo o corpo do bebê querendo sair, as mãos e os pés se mexendo ainda lá dentro, algo sem igual.

Entre uma contração e outra olhei pro lado e vi aqueles instrumentos cirúrgicos, me bateu o medo de as parteiras me fazerem uma episiotomia; gritei: — o que vocês vão fazer comigo?! Elas: — nada, é só fazer força, vai! Marco foi do outro lado ver o bebê nascer. Tão logo saiu, apenas apoiaram-no e  colocaram abaixo de mim, deitado na cama. Era uma coisa linda, de olhos bem grandes, braços abertos, suspirando e choramingando calminho, sob o sol amarelo que entrava pela janela.

Depois de olhar nos olhos daquela coisinha linda e pequena, que viveu dentro de mim até aquele momento, olhei pra baixo e vi: — Marco, é um menino!

Peguei-o nos braços, deitei na cama,  pequenino, molhado, com sangue. Fiz esse movimento com cuidado, pois o cordão umbilical era curto. Com o cordão já branco e vazio (isto é, depois que todo o sangue passou da placenta para o corpinho do bebê), o Marco fez o corte. Abraçava-o, aproximei-o do seio para tentar mamar. Não tinha leite ainda, nem colostro, ele não sugou tanto, mesmo assim foi um momento importante, a parteira instruiu como dar de mamar. A placenta saiu logo depois. Pudemos ver aquela outra metade do bebê, que o alimentou aquele tempo todo. Perdi bastante sangue, disseram as parteiras, mas não tive feridas grandes, somente um cortezinho perto do canal da uretra, coisa que não precisou de pontos… ufa! Algo que ajudou muito nisso foram as massagens no períneo, feitas  a partir da 34a semana da gestação. Altamente recomendável.

Assim Francisco nasceu — 14 de agosto de 2013, às 9h42 da manhã, com 2,5kg e 46 cm, depois de um trabalho de parto rápido e surpreendente! Foi lindo!

único registro fotográfico do parto; uma mãe muito feliz, um pai chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez

único registro fotográfico do parto: uma mãe muito feliz, um pai fotografando chorando de emoção e um filho vendo a luz do sol pela primeira vez

Mas todos esses dados — hora, peso, altura — só soubemos depois. Isso porque todas saíram da sala, somente nós três ficamos lá, nos conhecendo: uma hora juntos, a sós, Marco, Francisco e eu. Aos poucos a equipe voltou. Subi pro quarto, estava tremendo, morrendo de frio. Me enchi de roupas e deitei. Soube também que o Francisco estava com a temperatura corporal baixa, mas de resto estava tudo bem; apgar 9/10/10 e tudo em ordem.

O resto do dia dormimos muito, ele começou a mamar (falar sobre a amamentação rende longos textos!) e recebemos as primeiras visitas da família. Ficamos na casa de parto de quarta até sábado, quando voltamos pra casa.

*

Contando essa história a um amigo, ele logo perguntou: — você enfrentaria tudo isso tudo de novo, toda aquela dor? — É claro que sim! Não mudaria nada nessa história, nem mesmo se eu pudesse!

Entre a montanha russa, a escalada de uma montanha ou a maratona de que falavam, com que imagem fiquei da minha experiência? Pensei muito e ainda não sei dizer. É um pouco de tudo isso, e ao mesmo tempo diferente, que foge a qualquer comparação. Só sei que foi algo surpreendente, pela relativa rapidez (eu achava que iria durar horas e horas, ou até mais de um dia! menos de dez minutos depois de termos chegado na casa de parto, Francisco nasceu). Foi uma experiência que me deu muita força e coragem para viver todo o resto, ser mãe, acompanhar junto com o Marco o crescimento do Francisco. Algo, sobretudo, construído juntos, com muito amor e uma enorme felicidade de ter dado ao nosso filho um nascimento que respeitou o seu tempo, que respeitou o meu corpo e o seu corpo, os meus desejos e instintos. Que esse respeito e esse amor sejam o combustível, a luz e o calor para a nossa vida juntos, para a vida toda do Francisco.

*

Tantos clichês rodeiam a mulher grávida. Assim como há uma imagem arquetípica da mulher que oprime as mulheres reais, existe a mulher grávida arquetípica: aquela mulherzinha fragilizada com as mãos nas ancas e de pernas abertas, acima do peso, comendo tudo o que vê pela frente, com desejos de comidas estranhas, sob o poder de hormônios incontroláveis, correndo muitos riscos, com problemas de saúde aqui e ali. Sempre me percebi muito frágil: já fraturei tantos ossos, tive tantas alergias e problemas respiratórios, não consigo nem correr até a esquina. Mesmo antes de engravidar, tinha aqueles medos clássicos da gravidez: medo de hemorróidas, das varizes estourarem… enfim, medo de não dar conta. E não é que nada disso me aconteceu? Viajei, caminhei, subi escadarias, enfrentei frio e calor, fiz tudo o que meu corpo permitiu.

No começo da gravidez, li um texto da Ana Cristina Duarte que me tocou muito. Muito bem escrito, com uma postura aberta e sincera, mostrava a realidade de tantos nascimentos, controlados pelo relógio, pelos custos, pela manipulação e submissão do corpo da mulher. Disse a mim mesma: — não quero isso para mim, nem para o bebê.

Meses depois, consegui o que desejava; deixei medos e mitos de lado, disse muitos “nãos”, enfrentei médicos que me desacreditavam, fui contra o que pensava tanta gente ao redor, tomamos o Marco e eu a responsabilidade para nós e superamos uma história que infelizmente ainda se repete em tantas partes do mundo.

Nesse percurso de leituras e investigações, de pequenas lutas a cada dia, aprendi muito sobre mim mesma. Sou forte, posso —  bem aquela imagem da operária mostrando o muque e dizendo com o olhar implacável: we can do it! Descobri uma força que todas temos dentro de nós mas que muitas vezes vive calada. É essa coisa tão linda que eu desejo a todas as grávidas, a todos os bebês.

Não quero nunca esquecer a carinha do Francisco da primeira vez que o vi, seus olhinhos, o cheiro, o amor que a cada dia só cresce.
agradeço a  Jamila e Gabryelle; mesmo à distância, e de maneira bem sutil, elas me deram pequenas pistas que tive prazer em trilhar; obrigada a elas e a todas as pessoas com quem cruzamos nesses caminhos

ASSIM QUE CHEGAMOS EM CASA [relato de parto, 2/3]

deitei-me na cama com uma compressa quente na barriga, recomendação da parteira. O Marco trocava a compressa tão logo ela esfriava. Eu deveria dormir, mas quem disse que conseguia? As contrações continuavam constantes, a cada 3 minutos. Iam ficando mais fortes. Para suportar, deitada, eu mexia as pernas, vocalizava a dor. Não sei depois de quanto tempo resolvi levantar e me movimentar.

As contrações pareciam ondas do mar; dava pra avistar quando estavam pra chegar, vinham fortes, depois novamente recuavam. A cada uma delas eu pensava em um pouco de tudo: em mim, no bebê ali dentro, na minha família, nas informações com que tive contato. Muita gente diz que o parto é um momento do irracional, do inconsciente. Até tinha receio de estar “consciente” demais, mas era como eu me sentia no momento! De toda forma sentia uma imensa alegria também do bebê estar a caminho de seu nascimento!

Aqui cabe listar coisas que me ajudaram muito durante o trabalho de parto:

  • vocalizar a dor; quando sentia a contração, soltava um aaaaaa; algumas vezes um eeeee; ou então dizia logo: veeeeeem bebê!
  • relaxar o maxilar e o pescoço, pra não concentrar a tensão nessa parte do corpo; para quem já sofreu com bruxismo isso é essencial
  • andar, balançar o quadril, mudar de posição sempre: pernas abertas de pé, de cócoras, de quatro, de acordo com a vontade na hora; algumas delas eram posições que praticava nas aulas de ioga para gestantes, maravilhosas!
  • deixar as janelas todas fechadas (estava amanhecendo), as luzes apagadas quase ao máximo
  • abraçar e beijar muito o marido!
  • e talvez o mais importante: ter passado boa parte do trabalho de parto em casa. O parto domiciliar tem inúmeras vantagens: a pessoa se encontra no lugar que mais conhece, no qual se sente mais confortável e segura. Tive minhas razões para escolher a casa de parto, sobre isso falarei em outro texto. De toda forma, foi ótimo a parteira ter dito para eu voltar pra casa; no fim das contas, passamos grande parte do trabalho de parto em casa.

Dias antes do parto eu li uma lista valiosíssima com algumas dicas  — e não é que seguimos grande parte delas?

Dá pra perceber como tudo se conecta: as musculaturas do corpo relaxadas, a vocalização, beijar… e sentir-se bem, sem olhares de desconhecidos, sem exames de toque desnecessários, sem aquela luz branca de hospital, sem o cardiotoco amarrado na barriga dando o sinal dos batimentos do bebê e que te limita os movimentos, sem a possibilidade de ficarem oferecendo remédios, anestesias e indutores…

Podem argumentar que o hospital dá segurança. Pois para mim me deu segurança justamente não estar num hospital: será que eu conseguiria gritar à vontade numa sala de hospital? será que me deixariam livre pra me mexer como quisesse? e os abraços no marido seriam tão fortes?

E sobre as tais dores do parto, acredito que tudo depende da forma como a encaramos: não estava sofrendo, mas passando pelos momentos finais da gestação; sentia que x bebê estava prontinhx para nascer — quer sensação mais animadora do que essa?!

No começo da gestação, uma moça, que teve seus dois filhos por cesárea, arregalou os olhos quando eu disse que não queria anestesia nem qualquer intervenção no parto: “impossível! as dores são fortes demais; você é muito corajosa”… pois corajosa acho quem enfrenta hospital, correndo o risco de passar por algum tipo de violência obstétrica, que pode acontecer de tantas formas.

ovonovo_aaaaVoltando ao relato: deu fome, comi uma banana mas logo depois vomitei tudo (a primeira vez que vomitei durante toda a gravidez). Evacuei também; é o corpo se limpando, liberando-se de tudo, pensei. Tomei outro banho — e que gostoso o contato com a água! Saindo da ducha, as contrações vinham fortíssimas. Aí veio aquela famosa sensação que parece vontade de fazer cocô, mas não é porque já tinha feito… Eis que bate a dúvida: será a cabeça do bebê já querendo sair?! E nós aqui em casa!

Com toda a calma, entre os minutos que separavam uma contração da outra eu me preparava pra sair de novo. Durante as contrações eu realmente me entregava, gritava, me jogava no chão, fazia o que o corpo pedia. Eram mais ou menos 9h da manhã. Nem deu pra perceber o tempo que passou, ainda mais porque realmente com todas as janelas fechadas não se sentia a luz do sol dentro do apartamento.

Agora imagine se eu tivesse tomado o remédio que a parteira tanto insistiu em me dar. Estaria talvez dormindo, sedada, durante toda a manhã. Como teria transcorrido todo o trabalho de parto? Pois não foi melhor ter deixado tudo rolar naturalmente, sem (des)acelerar o ritmo do meu corpo e do bebê?

Não conseguia nem me sentar no carro, porque sentia a cabeça do bebê prestes a sair! As contrações vinham, eu me segurava, agora dizendo: — pera um pouquinho bebê! espera chegarmos na casa de parto!