Arquivo do mês: agosto 2010

UM ALUNO

meu, que já tem uns cinquenta anos, estava adolescente no meu sonho. E eu era professora da escola: ele no meio de vários outros alunos como ele, iam se tornando irreconhecíveis, difíceis de discernir – quem é quem? Todos muito iguais, agindo como um grupo, de uniforme. A professora, como a aquela do Petit Nicolas, sem muita força para lutar contra a maioria, contra os espaços imensos – corredores, pátio e escadarias – da escola.

Anúncios

DESDE QUANDO

gosto especialmente de elefantes? eles aparecem nos meus desenhos? começo a acumulá-los na vida? recebo elefantes nas mais diferentes formas como presente? Hoje encontrei num caderno do terceiro colegial uma marca, talvez mais próxima do começo dessa obsessão – em meio a recados trocados na aula, poeminhas, desenhos mil, contagem de votos, equações trigonométricas e rascunhos de redação.

FLOR DE PAPEL

PASSEAMOS PELO TIETÊ

de barco, com um grupo organizado por uma comunidade de arquitetos, domingo passado. O que mais me marcou é algo óbvio, mas que eu não ligava à imagem dos rios poluídos: mesmo um rio sujo corre.

MENOS PODE SER MAIS

é o que parece mostrar Reflexões de um liquidificador: poucos personagens para bons atores, uma trama seca e previsível, o tratamento direto de um absurdo (o liquidificador que fala com sua dona), uma direção de arte cuidadosa que não caiu no exagero, mas estava quase lá, tudo bem. Com isso, imagens simples como a ida do liquidificador para a casa da família, observando a cidade, ou os olhares do detetive cheirando sangue são deliciosas. Um pouco de reflexão demais da parte do liquidificador, Selton Melo que volta a dublar – perdoa-se. Além disso, a divulgação do filme foi espertinha em deixar de lado uns minutos a mais de trailer para dar espaço a uma apresentação de stand up comedy. Simpático.

NO ESCRITÓRIO

eu tinha horário para chegar e para sair; não podia chegar depois, nem sair antes; mas muitas vezes chegava antes e saía depois, muito depois. Ia de sábado por escrúpulo: muito trabalho acumulado. Contava horas extras no fim do mês. Cultivava a rotina: ir ao mesmo supermercado, comprar o mesmo pacote de bolachas integrais; fazer as mesmas piadas com os colegas; rir e se exasperar com as mesmas mensagens do chefe; levar para ele a mesma caneca de café; ir à mesma livraria na hora do almoço. Algumas variações: às vezes um restaurante, almoço de negócios, eu, a assistente, mocinha estranha que se veste com a calça do pai. Um diretor de outra empresa, no telefone, me cantava ‘ô Anna Julia!…’. Toda sexta baião de dois e suco de limão na casa do norte, antes de escolher uma pilha de filmes para assistir em casa.

DO QUE EU NÃO VEJO

há quem veja por mim, fora do meu alcance, sem que eu possa ter o mínimo controle, os fatos; alguém, que vê o que não estou vendo, olha pra mim com cuidado (ou mesmo sem) e me diz, certeiro: – Ana, não é assim.

Fico feliz por isso: pela amizade, por contar com o que me falam, palavras tão evidentes, verdades que não entendo, coisas que eu nunca veria sozinha.