Arquivo do mês: fevereiro 2010

POR ACASO

juntamos dois passeios com a mesma temática hoje: museu Lasar Segall, com a exposição de Hildegard Rosenthal e Horacio Coppola e exibição de São Paulo sinfonia da metrópole no Sesc, com acompanhamento musical ao vivo.

O olhar atento tentando descobrir que cantos da cidade a imagem conseguiu guardar. A sedução dos anos 20-30-40-50… tudo o que seja suficientemente passado. Os prédios em construção se levantando em todo canto, os carros enchendo as ruas, o amontoado de gente que não cabe na calçada. Será mesmo muito diferente de hoje?

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UM SAMBINHA

não porque é carnaval…

Mas porque lembrei dele junto com a Lúcia hoje, musiquinha difícil de cantar. Fui procurar no youtube e achei essa versão simpática, gravada num lugar que sempre imaginei deveria ser filmado mesmo: o interior do prédio da Engenharia Hidráulica, na USP. Fica em frente do conjunto da Psicologia, perto da raia, e ali no meio das árvores ninguém percebe que dentro há um cenário de filme.

Só conheci esse prédio de acesso restrito porque ali ficavam as instalações provisórias da Rádio USP, engraçado, na mesma época em que o vídeo acima foi feito, março de 2008. Experiência e tanto de Ciço e eu. Ainda lembro do cheiro e do silêncio-barulho desse espaço enorme cheio de canos. Demais.

O QUE É ENJEU?

[sugestão da Dani Prado]

Substantivo masculino. Do francês, palavra formada por en + jeu; logo, é possível, em alguns casos, traduzir-se enjeu por em jogo.

O Dictionnaire du moyen français atesta que o termo em sua origem designa o dinheiro que se colocava numa aposta, num jogo de dados, por exemplo; a aposta. Essa acepção continua em uso no francês de hoje em dia: aquilo que colocamos em jogo no momento em que ele começa, e que ficará com o ganhador.

A palavra ganhou então com o passar do tempo sentidos mais amplos. Por extensão, designa aquilo que se pode ganhar ou perder numa competição, empreendimento, debate. Tudo aquilo que colocamos em risco ou que esperamos obter.

Encontra-se frequentemente enjeu na imprensa, no discurso acadêmico, etc. Por exemplo: “dites quel est l’enjeu théorique du titre ‘Le langage et l’expérience humaine’, de Benveniste…”, questão com a qual me deparei faz pouco tempo. A presença de enjeu no enunciado me intrigou à beça.

FRAGMENTO

de uma página da agenda de 2008, 6 de fevereiro:

les revues étalées

imaginez que vous êtes dans un kioske à journaux, vous regardez les couvertures;

quelles idées elles vous transmettent : type, public, fréquence

[As revistas espalhadas, imagine que você está numa banca de jornais, você olha as capas; que ideias elas transmitem: tipo, público, frequência.]

Pensei em mil coisas (uma reportagem com meu vô na gazeta de Pinheiros, foto da minha mãe numa banca, um desenho de Sempé…) antes de me dar conta de que isso era muito provavelmente um pedaço de atividade para a aula de francês, que eu só vislumbrei mas não coloquei em prática.

SONHEI COM O LEJEUNE

que eu me lembre, é o primeiro sonho que tenho com meu objeto de pesquisa.

Falávamos por telefone. Eu podia ver onde e como ele estava. A grande questão é que ele mudava de rosto enquanto a gente conversava. Também em um momento passávamos do francês para o português, como se não houvesse diferença entre uma língua e outra.

Ele me pergunta se eu já estava a caminho da França, para encontrar com ele. Informações desencontradas mas que estavam encontrando um caminho.

Também sonhei com um carnaval de rua, com colegas da escola e gente vomitando.

O QUE É CONTRAINTE?

Do francês, do verbo contraindre: que exerce uma ação contrária a; forçar alguém a agir contra a vontade; obrigar, empurrar, controlar, condenar, reduzir.

Coerção, força, violência, intimidação, ameaça, pressão. Coisa que impede, que coloca obstáculo. Regra, disciplina, lei. Opressão.

[adaptado do dicionário le Petit Robert]

O dicionário le Petit Robert elenca ainda duas outras acepções para contrainte, uma para o mundo jurídico, outra para a física e geofísica. Mas não diz nada do emprego da contrainte na literatura (francesa principalmente) e nas artes.

Usar contrainte na criação artísitica é trabalhar sob regras e limitações, impostas arbitrariamente. Essas limitações podem ser dos mais variados tipos: na redação de um texto, pode-se limitar o número de palavras, pode-se proibir o uso de um dado tempo verbal ou mesmo de uma letra do alfabeto. Um exemplo: o escritor Georges Perec escreveu um romance sem usar uma única vez a letra “E”, a mais frequente no francês: La disparition.

Enquanto escrevia o texto abaixo me perguntava se eu estava fazendo sob uma limitação. E acho que sim, talvez mais de uma. Escrevendo sobre limitação sob limitações.

UM EXERCÍCIO

(de estilo? sob contrainte?) em torno de um tema que me obseda e que tem tomado conta de conversas:

DAS LIMITAÇÕES

Somos seres limitados que têm consciência disso – e talvez os únicos que tentam lutar contra algumas limitações ao mesmo tempo em que criam outras. Tendem a aceitar muito bem as próprias limitações (prova de bom-senso e respeito ao próximo), mas pouco provavelmente aceitam tão bem as limitações (escolhas) dos outros. Com isso, podem pregar uma liberdade que tiraniza: – exercício de dar nomes às coisas?