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VIA NO ESPELHO

umas manchas estranhas no rosto. Algumas pareciam desenhos, reunião de pintas. Elas ficavam piores com o passar do tempo, me davam medo. E parecia que anos se passaram no sonho. Eu voltava ao espelho e as marcas tinham mudado de cor, de tamanho; mantinham-se todavia no mesmo lugar.

Estavam ali para me fazer lembrar quem eu sou, as coisas que eu fiz.

ERA UMA VEZ

uma menina que escrevia; ela passava o dia todo pensando nas histórias que ia contar aos amigos: os passeios, os sonhos que ela teve com eles, com personagens de outras histórias, com diretores dos filmes que iam ver no cinema, matando aula; juntava desenhos que encontrava por aí, fotos e cartões postais perdidos no meio dos livros que ela espanava nas estantes; salvava imagens de sites perdidos na internet.

Ela tinha um jeito de escrever que não existe mais – diz um leitor, que sabe de cor um texto dessa menina, que ela mesma desconhece; texto lindo esse, que ele não consegue mais encontrar em lugar nenhum.

EU QUERIA SABER

ACORDEI DE UM PESADELO

com uma música na cabeça: “quando me vi tendo de viver comigo apenas e com o mundo…”. Continuei a cantar na cabeça, seguindo a letra, aí cheguei numa parte assim: “voltamos a viver como há dez anos atrás e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”.

Essa imagem era a que eu mais gostava de toda a música. Tinha dez anos quando ela tocava no rádio. Tentava levar o que a música fala ao pé da letra: voltar a viver uma época do passado, mas com andamento rápido. Calculava depois de quantas horas (dividindo os minutos em dias da semana) eu estaria vivendo meu tempo presente.

DEIXA

pra lá, não pega, não leva agora. Você precisa mesmo disso? Posso ir atrás depois, mais tarde. Agora não, assim tá bom, como está. Calma. Não é pra gritar. Não precisa chorar. Não importuna, você está enchendo o saco. Não tou afim de falar. Reclama menos das coisas. Ainda tem tempo. Amanhã é melhor, hoje não. Deixa eu falar, não estressa. Você não sabe como é. Pra que sair correndo? Ela é quem sabe. Você quer controlar tudo. Você não tem ideia de como é difícil. O que você tem a ver com isso? Os incomodados que se mudem. A vida não é do jeito que você quer.

UMA NOITE EM 67

teve pré-estreia essa semana; uma fila longa saía por uma das portas do conjunto nacional. Nelas, tanto pessoas que acompanharam o festival como outras que, ainda não nascidas em 67, apenas sentem o peso da música daquela época – e reverenciam, também. Eis um dos grandes valores do documentário: fala de um evento de peso para a cultura brasileira; resgata a memória, remasteriza as imagens, reatualiza as discussões que foram ali levantadas. Por isso só, pelos nomes que elenca em seu pôster, o filme vale ser visto, pronto.

Mas saio da sala com uma sensação que também compartilho com a minha mãe, com quem fui ver o filme: a de que só se ouve os grandes nomes, de que tudo é festejado; só se guarda daquilo o que realmente merece ainda reverência. Por mais que Caetano e Chico dêem hoje pouca importância ao festival em si, dizem “não sentir saudade daquela época” (acho sinceramente que os entrevistadores não precisavam perguntar coisa assim para Chico e Caetano, mas enfim), nem se lembram mais de cor as músicas que apresentaram. Mesmo com as revelações cruzadas que vão aparecendo nas entrevistas e que fazem rir tanto o público quanto quem está no filme. São pontos de equilíbrio, talvez, mas que continuam nas vozes dos próprios atores (e ainda assim, de alguns atores), o que não permite muita crítica ou muita abertura, mas volta e consolidação do passado. Pouco revolucionário ao tratar de uma “revolução”.

ALGUMAS REGRAS

eu nunca entendi direito. Ia jogando porque as regras não são a razão do jogo. Algumas vezes elas são incompreensíveis, como nas explicações de manual, nos arquivos de ajuda dos jogos do computador. Mais vale olhar para o tabuleiro, juntar pecinhas, apertar botões sem critério, perder repetidamente, acompanhar o conselho de alguém que sabe mais, lembrar de outros jogos, intuindo. Truco, por exemplo, adorava ver as pessoas gritando e dando risada, batendo as cartas na mesa, trocando olhares, sem ter ideia da regra mais elementar que guiava tudo aquilo. Que mais era necessário?

FOLHEANDO UM LIVRO

percebi aquele alarme metálico que todos os livros das livrarias têm, um pouco diferentes dos alarmes magnéticos das bibliotecas – e semelhante aos alarmes de qualquer outro produto, da farmácia, da loja de departamentos, disfarçado de código de barras. Um elemento que não deve ser percebido, discreto, da cor do papel, ou no fim do livro ou colado entre as mesmas páginas em todo o acervo. Inativo quando o livro é nosso, se substitui à propriedade. Intermitente, o da biblioteca.

A imagem que me veio é a desses inúmeros campos magnéticos silenciosos, que não sabemos ao certo se estão dormindo somente, se ainda há neles uma força que os faz agir em meio às palavras do livro, aos princípios ativos do desodorante. Magnéticos como os dados que guardamos nos discos – e que se apagam com o tempo, sem garantia, sem razão.

Parece a minha inquietação com o ar que eu respirava dentro das catedrais francesas – ar com poderes.

AQUELES DIAS

acabaram. É a notícia que se mostra no dia que começa, o sol fresco. A água de novo.

Acabou – alguém repete. Uma voz dentro. Mas só se sabe que aqueles dias acabaram porque eles ainda estão aqui, ao redor, em cada pedaço de tudo. Como no livro, “tudo está em tudo”. Se tudo está em tudo, “por que se preocupar?” – é o que ouvi e fui repetindo, a caminho do bebedouro, encher a minha garrafa.

Acabou, mas se repete.

ANTES DE REALMENTE

começar a sonhar, me deu uma vontade enorme de comer cachorro quente. Já deveria ser um sonho: eu ainda não teria pegado no sono, e me veio cachorro quente à cabeça. Nunca fui hiper fã de cachorro quente, estranho ter esse desejo, justo agora que não como mais carne.

Aí pensei naqueles carros que param na rua vendendo cachorro quente. Catchup e mostarda.
Talvez porque eu de tarde comi hamburguer de soja, e pensei que o da Sadia combina mais com pão branco, e não com pão integral. E que não é necessário nenhum tempero com esse hamburguer, tão forte ele é nos condimentos. Aquela coisa: “é de soja mas é gostosinho”.

Aí pensei que poderia comprar no mercado salsicha de soja. Ou melhor: que a banquinha de tapioca da ECA teria cachorro quente prensado de soja.

Teve vários sonhos depois disso, uma filha de professora que não existe, mais uma criança para eu dar aula.

O que me restou foi esse cachorro quente. E não a vontade de comer cachorro quente: essa acho que passou.

ANTES DISSO

vi uma cena histórica que não conhecia: um discurso do Ronald Reagan em frente à porta de Brandenburgo, justo no limite entre Berlin ocidental e oriental.

Era criancinha na época, passou batido. Pra mim, soou ousado. Sei lá. Gostei, independente de qualquer outra coisa.
Foi como ver Che, quinta-feira de cinema lotado no Unibanco. Fiquei pensando se o que nos resta agora é assistir – e só isso…

VER O CHE

me fez ter um sonho lindo.
Estava em Santos, naquela parte mais centrão da cidade, construções antigas, pintadas de cores alegres. Dia de sol agradável.


esse dia em Santos estava agradável somente dentro do aquário

Olhando com mais atenção para o que acontecia nas ruas, deu pra perceber que tínhamos bondes andando. Olha bondes!
Provavelmente Santos teve bondes. Pois então. Eles saíam das garagens e dos depósitos, voltavam à ativa.
Havia vários modelos, uns que mais pareciam trens de carga, mas ok, o transporte era barato, tinha lugar pra todo mundo.

RESOLVI VOLTAR

a pé para São Paulo. Não foi difícil escalar a serra.
Aprendi vendo um filme que precisamos ter três membros firmes na pedra, um braço e as pernas, para poder procurar com outro braço uma pedra mais acima. E foi assim.

As pedras, chegando no planalto, tinham duas cores, um bege clarinho e marrom mais forte, que pareciam pintadas ou um efeito da luz do sol.

Chegando, cometi um erro. Coloquei Guarulhos no sul, no lugar de Diadema.
Fiquei procurando um ônibus intermunicipal, os bondes talvez voltando também a funcionar, mas nada estava mais certo.
Peguei um bonde andando, acho…