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TENHO AGENDAS

desde uns 9 anos de idade. Anotava as coisas mais miúdas do dia: a rotina da escola, devolução de livros na biblioteca, colava recortes de jornal, figuras de revista. Também deixava recados para mim no futuro; em fevereiro, pegava uma página de outubro e deixava alguma pergunta enigmática.

Ontem num caderno, li algo como: “Ana, você não vai viver esse momento duas vezes”. Deve ter sido coisa que ouvi de alguém, não sei quem mais; nem que momento seria esse. De toda forma continua sendo verdade.

EU FIZ LISTAS

de coisas a fazer, assuntos para conversar, datas importantes para lembrar, leituras, filmes, lugares para conhecer, alguns pedaços de música; mas de nada adianta: o que sai na hora é imprevisível.

Há também uma lista de regras que eu mesma me coloco, uma pequena disciplina para coisas simples do cotidiano: coisas que eu devo fazer todo dia, outras coisas pra não fazer sozinha. Elas valem durante um tempo. Por que deixo essas regras de lado?

Das duas uma: ou não sei fazer listas, ou não sei como segui-las – ou vai ver é assim mesmo que as listas são.

OUTRO ASSIM

igual, do mesmo jeito, de novo: é o que a gente procura nas coisas; algo parecido com outra coisa, que leva a outras coisas parecidas: ver o mesmo tipo de filme, ler um mesmo livro várias vezes, assistir a mesma novela que reprisa. Uma vez li uma crítica de cinema que dizia isso, de maneira negativa: os mesmos tipos de filme hollywoodiano são refeitos por anos e anos. As pessoas continuam a assistir, se divertir e esperar por mais.

OS POST-ITS

eram uma coisa meio supérflua: para que colar papel em cima de outro papel? Por que não escrever logo – sublinhar e marcar diretamente com lápis ou caneta – o que quer que seja?

Já faz um tempo meu hábito de leitura mudou: post-its se acumulam entre as páginas de alguns livros; marcadores coloridos me fazem lembrar como eu li. E em conjunto, deixam bem claro, no livro fechado, que ele será relido.

(dedicado ao Cícero)

OS TRÊS REIS MAGOS

eram personagens estranhos: como eram magos se na religião não podia haver magia?

Ficavam mais longe que as vaquinhas, o boi, José e Maria, e o pastorzinho com uma ovelha, no presépio, olhando de canto a movimentação de dezembro. A partir do natal, iam chegando cada dia mais perto da manjedoura. Dia 6 de janeiro chegavam, mas já era hora de recolher todas as pecinhas e encaixotar a decoração, pra tudo recomeçar lá no final do ano.

ACHAVA O MÁXIMO

os passarinhos terem o cérebro tão pequeno, os ossos ocos e o conhecimento natural que não temos: voar assim tão facilmente.

MISTURANDO TUDO

Hannah e suas irmãs, Minha noite com ela, jogo de corrida de carros nas cidades, Waking life, A origem, Alta fidelidade, 500 dias com ela, Amélie Poulain, Seattle nos anos 90, terremotos em 1910, pontes e mais pontes foram criando um sonho assim: eu, e mais alguém, saíamos por San Francisco ensolarada. Primeiro uma loja de LPs, depois a gente corria para uma loja de móveis e artigos de casa. Quando me dava conta, voltava pra rua, muito reta, mas cheia de subidas e descidas bem sutis. O celular me acorda – e percebo que meu sonho era uma vontade de voltar no tempo.

(Sobre Hannah…, que passou ontem na tevê: não é por acaso que Mickey (Woddy Allen) entra na loja de discos atrás de Holly (Diane Wiest). Ela estava justamente na seção de jazz, que dizia antes não gostar…)

POR QUE O BLOCO

amarelo? A explicação simples: porque aparecia no seriado que mais gosto, Flight of the conchords. Nele Bret e Jemaine compunham as músicas; Murray fazia as atas de reunião; e, quem sabe, o musical que encerra a série. Independente do que eu poderia escrever nos blocos amarelos, precisava deles também.

DUAS FESTAS

uma dia 17 de agosto; essa bem-sucedida, Karen e eu organizamos outra, em novembro, dia 23.

A primeira queríamos que fosse inovadora: talvez a primeira festa dos anos 90 depois dos anos 90. Esforço do grupo de amigos em lembrar das músicas da década anterior, com bem menos recursos na internet do que hoje. A segunda era à fantasia, com tema dos personagens de desenhos, principalmente. Todo o trabalho, o tempo e as andanças para achar um lugar, salão, casa ou algo parecido, alugar por uma noite, ir comprar bebidas onde fosse mais barato, equipamento de som e luz, fazer um convite legal, retocar as imagens com os meios amadores que tinha, colar cartazes por aí, fazer lista de emails. Depois: limpar tudo, e ver o que ainda hoje sobrou.

EM NOVEMBRO TAMBÉM

fiz esse desenhinho, planejando continuar outros na mesma linha; pensava também, por outro lado, que eu precisasse de roteirista em parceria.