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INDO PRA ESCOLA

eu não gostava de chegar antes de o portão abrir; me desagradava a possibilidade de ficar parada no meio dos colegas, separada do restante, sem ter com quem falar. Então eu descia do ônibus uns dois pontos antes, na esquina com a Veridiana, e ia o resto do caminho a pé. Era o tempo exato para a entrada.

Ainda faço isso em algumas situações; pego o caminho mais longo, desço antes, invento um trajeto alternativo para chegar na hora – nem antes nem depois.

UM PEIXE GRANDE

daqueles de olhos esbugalhados e barbatanas longas mordeu meu dedo. Não sei se foi assim que o pescamos. Colocamos num balde, e ele ficou nadando na vertical. Balde pequeno.

Saí correndo pela Martim Francisco procurando uma loja onde pudesse encontrar um balde maior. Passei em frente ao Fidelino, na porta estavam as mesmas pessoas da época em que estudei. Pensava em Peixe grande, do Tim Burton.

Com custo arranjei outro balde, transparente. O peixe tinha diminuído, estava laranja, mas no balde novo cresceu, escureceu e começou a falar comigo.

Acordando com o despertador vi que esse sonho tem tudo a ver com Ponyo!

TUDO É FEITO

de átomos, fomos informados numa aula de ciências. Já tinha visto na tevê: eram bolinhas que giravam umas em torno das outras.

Esses pedacinhos de tudo se mexiam, mesmo nas coisas mais sólidas que existem, eles estão lá, não param. E como poderíamos ser formados por algo que tem tantos espaços vazios?

Eu ficava pensando se poderíamos esfarelar como uma paçoca, se os átomos todos resolvessem se mexer de um jeito diferente, de repente.

MINHA MÃE DISSE

que ia buscar a gente no fim do dia. Era no pré. Mas ela não garantiu inteiramente: daí veio o problema. Ela disse que se não chegasse exatamente no horário da saída, a gente deveria pegar a perua e ir embora pra casa. Será que eu não ouvi, não entendi, ou queria que ela fosse nos buscar custe o que custasse?

A questão é que ficamos, os três, sentados por muito tempo esperando. Eu dizia que ela iria chegar a qualquer momento. E não chegava, muito tempo passou e nada. As funcionárias da escola precisaram ligar pra casa e avisar que estávamos lá, olhando o movimento da rua, aguardando que alguém entre os passantes da avenida Pedroso de Morais fosse ela.

FAZIA UM ESTÁGIO

numa escola pública; começo do ano letivo. O secretário da educação estava na sala de aula, distribuindo cadernos aos alunos. Ele autografava cada caderno, junto com uma mensagem e uma foto sua. A ideia era motivar os alunos… como estagiária, eu fazia a distribuição aos adolescentes, com zombaria discreta.

Uns quatro alunos chegam atrasados. Como castigo, eles devem deixar os documentos conosco, e teriam o nome anotado no livro negro. Não eram brasileiros: tinham carteiras de identidade estrangeiras, passaporte, rne. Um deles começa a falar japonês conosco, sorridente (estaria ele tirando uma com a nossa cara?). Aponta para uma televisão que está atrás de nós, ao lado da lousa. Estava passando um episódio das tartarugas ninja. Mas elas estavam velhas e muito gordas, quase irreconhecíveis.

ME AGRADAVA REPETIR

coisas pequenas no dia a dia: sentar-me sempre no mesmo lugar da mesa para comer, usar a mesma colher para mexer o chá mate, comer o mesmo lanche no recreio, no mesmo lugar do pátio; manter fixas na semana as datas de devolução dos livros na biblioteca; numa mesma ordem pentear o cabelo, escovar os dentes  e tomar banho; organizar na mochila os livros e cadernos para cima, os livros atrás, cadernos à frente; as cores os lápis e canetas no estojo; tomar o metrô no mesmo vagão, escolher, se livre, o mesmo banco.

Ainda continuam certas coisas assim, que percebo se elas mudaram de lugar.

DAS POUCAS CERTEZAS

uma delas: ela gosta de dar aula. Certeza ingênua ou incompleta, difícil de explicar; com dores e defeitos, ser professora agrada, dá vontade. Sente que não terminou de viver a sua adolescência, e vive a que vê nos outros.

A MOÇA PARECIDA

com a Ellen Page apareceu num sonho. Ela organizava uma campanha na escola, para ajudar a reorganizar o acervo da biblioteca. Decidiu com uns colegas realizar um grande evento e arrecadar dinheiro. Eu estava lá no dia, com minhas amigas bibliotecárias. Ellen Page conseguiu convidar a Gisele Bündchen que, descobríamos quando ela chegou à escola, tinha estudado biblioteconomia em paralelo à carreira de modelo.

MENINA LARANJA

é um desenho da época da escola, que encontrei no meio de outras coisas; uma folha perdida dos cadernos de educação artística. Sei lá por que eu desenhava as mãos com 4 dedos.

O PODER DA PALAVRA

foi o tema da redação que eu escrevi como castigo a uma ousadia minha. Havia duas professoras de português: uma para o 1ºH, outra para o 1ºI. Uma delas me dava carona, a que não me dava aula. O que devo ter feito para merecer bronca: deixei claro para as duas que elas não se gostavam uma da outra. Tive que assumir a culpa por ter feito comentários desnecessários (afinal, o que eu disse não devia ser novidade para elas) frente a toda a classe, que ao meu ver não precisava tomar conhecimento do que eu fiz.

A redação, pode ser que eu a tenha guardado junto com os papéis da escola, como outras, que não eram de castigo. Já o poder da palavra ainda hoje não consegui entender.