Arquivo da tag: caderno

TENHO AGENDAS

desde uns 9 anos de idade. Anotava as coisas mais miúdas do dia: a rotina da escola, devolução de livros na biblioteca, colava recortes de jornal, figuras de revista. Também deixava recados para mim no futuro; em fevereiro, pegava uma página de outubro e deixava alguma pergunta enigmática.

Ontem num caderno, li algo como: “Ana, você não vai viver esse momento duas vezes”. Deve ter sido coisa que ouvi de alguém, não sei quem mais; nem que momento seria esse. De toda forma continua sendo verdade.

NOS DESENHOS DE BICHOS

sempre fica a dúvida, pra quem vê: é o que, isso? Não, isso não é um elefante; um dinossauro talvez; e esse, cachorro ou gato, sapo ou peixe?

O legal é que eles possam parecer outra coisa, diferente do que eu pensava quando desenhava.

ESCOLHER UM OBJETO

não desenhar ao acaso: foi o que eu me disse.

 

Mas penso também, por outro lado, que o maior talento é conseguir falar, escrever, desenhar sobre nada, sem objeto algum.

POR QUE O BLOCO

amarelo? A explicação simples: porque aparecia no seriado que mais gosto, Flight of the conchords. Nele Bret e Jemaine compunham as músicas; Murray fazia as atas de reunião; e, quem sabe, o musical que encerra a série. Independente do que eu poderia escrever nos blocos amarelos, precisava deles também.

FAZIA UM ESTÁGIO

numa escola pública; começo do ano letivo. O secretário da educação estava na sala de aula, distribuindo cadernos aos alunos. Ele autografava cada caderno, junto com uma mensagem e uma foto sua. A ideia era motivar os alunos… como estagiária, eu fazia a distribuição aos adolescentes, com zombaria discreta.

Uns quatro alunos chegam atrasados. Como castigo, eles devem deixar os documentos conosco, e teriam o nome anotado no livro negro. Não eram brasileiros: tinham carteiras de identidade estrangeiras, passaporte, rne. Um deles começa a falar japonês conosco, sorridente (estaria ele tirando uma com a nossa cara?). Aponta para uma televisão que está atrás de nós, ao lado da lousa. Estava passando um episódio das tartarugas ninja. Mas elas estavam velhas e muito gordas, quase irreconhecíveis.

ME AGRADAVA REPETIR

coisas pequenas no dia a dia: sentar-me sempre no mesmo lugar da mesa para comer, usar a mesma colher para mexer o chá mate, comer o mesmo lanche no recreio, no mesmo lugar do pátio; manter fixas na semana as datas de devolução dos livros na biblioteca; numa mesma ordem pentear o cabelo, escovar os dentes  e tomar banho; organizar na mochila os livros e cadernos para cima, os livros atrás, cadernos à frente; as cores os lápis e canetas no estojo; tomar o metrô no mesmo vagão, escolher, se livre, o mesmo banco.

Ainda continuam certas coisas assim, que percebo se elas mudaram de lugar.

DESDE QUANDO

gosto especialmente de elefantes? eles aparecem nos meus desenhos? começo a acumulá-los na vida? recebo elefantes nas mais diferentes formas como presente? Hoje encontrei num caderno do terceiro colegial uma marca, talvez mais próxima do começo dessa obsessão – em meio a recados trocados na aula, poeminhas, desenhos mil, contagem de votos, equações trigonométricas e rascunhos de redação.

ERA PRA SER

um diário de viagem; anotações do que ia, um dia depois do outro, acontecendo. Para isso ele teria que ser feito a qualquer momento, tirado da bolsa tão logo se passasse algo digno de nota: um chiste, uma nova palavra, uma placa de um lugar já conhecido que se reconhece, depois de anos. Um caderninho de capa bonita, floral. Que chamasse a atenção de quem está ao lado: – nossa, que bonito! deixa ver? – não.

Um diário que fala de todos mas que ninguém sabe o que diz.

Mas foi um caderninho – como outros que tenho, de folhas que se soltam – que me acompanhou mais enquanto estava sozinha. Para eu não dormir sem cuidados.

AH EU QUERIA

mas não sei se só querer resolve alguma coisa.

ESTANTES CHEIAS

demais. Sonho recorrente, da última semana.

Ou são muitos dvds, grande parte que eu não assisti, em dois lugares. Não há espaço para deixar todos juntos. Como separá-los, sob que critério? Fico arrumando de duas ou três maneiras, não há conclusão.

Sempre nesses sonhos com livros, cadernos ou livros, todos parecem maravilhosos. Tanto as capas são coloridas, convidativas para o mundo que eles guardam silenciosos.

As capas coloridas dos livros à minha direita também não cabiam no espaço que lhes era reservado. Isso foi o sonho de ontem pra hoje. Como costumo fazer em outra estante, faço duas fileiras de livros. Só que no caso do sonho eram (mais) DVDs que ficavam na fileira de trás, escondidos. Maravilhosos também, segredos que eu deixo lacrados para mim mesma, aquela do futuro que receberá presentes e realizará seus desejos.