Arquivo da tag: aula

HÁ IDIOMAS

em que a palavra “outono” não existe – explicava um senhor que dominava muitas e muitas línguas diferentes. Sem a palavra outono, as folhas das árvores não mudam de cor, não caem. E também chega a primavera – continua ele. Só se vive os dois grandes momentos opostos do ano: o verão e o inverno.

Por outro lado, há palavras escondidas para momentos do dia e cores do céu que não conseguimos enxergar.

ERA UMA VEZ

uma menina que escrevia; ela passava o dia todo pensando nas histórias que ia contar aos amigos: os passeios, os sonhos que ela teve com eles, com personagens de outras histórias, com diretores dos filmes que iam ver no cinema, matando aula; juntava desenhos que encontrava por aí, fotos e cartões postais perdidos no meio dos livros que ela espanava nas estantes; salvava imagens de sites perdidos na internet.

Ela tinha um jeito de escrever que não existe mais – diz um leitor, que sabe de cor um texto dessa menina, que ela mesma desconhece; texto lindo esse, que ele não consegue mais encontrar em lugar nenhum.

TUDO É FEITO

de átomos, fomos informados numa aula de ciências. Já tinha visto na tevê: eram bolinhas que giravam umas em torno das outras.

Esses pedacinhos de tudo se mexiam, mesmo nas coisas mais sólidas que existem, eles estão lá, não param. E como poderíamos ser formados por algo que tem tantos espaços vazios?

Eu ficava pensando se poderíamos esfarelar como uma paçoca, se os átomos todos resolvessem se mexer de um jeito diferente, de repente.

NO CURSO DE INGLÊS

o primeiro professor se chamava Marcos: nunca falava em português, entendíamos tudo o que dizia. Depois, uma senhora ex-secretária bilíngue. O sotaque dela era criticado discretamente pelo professor do básico 3: um japonês que trabalhava na Varig e viajava pelo mundo, dando preferência aos lugares obscuros da Ásia, como Bandar Seri Begawan, capital do Brunei.

No intermediário o professor era apaixonante. Ele não conseguia nos convencer que tinha 14 anos – assim como eu também parecia mais velha. Ia no Balafon, balada na rua Sergipe, entrava porque enganava a idade. Era de Recife, quando falava português ficava evidente. Amava Pink Floyd, passou Wish you were here e umas outras deles. Sobre ele, me confundo particularmente: ele usava camisa xadrez azul de flanela, como eu também?

CAFÉ COM CHOCOLATE

o café: preto, sem açúcar, de coador ou expresso; chocolate: pouco doce, meio amargo, já foi alpino mas ultimamente tem sido diamante negro. Comida utilitária, alegra e espanta o sono. No prédio da Sociais, antes da aula ou no intervalo, entre os banquinhos de cimento, embaixo das árvores, com pedaços de conversa e fumaça de cigarro.

Beijo para a Dani Prado que contribuiu nessa receita como em outras que virão.

GUARDEI UMAS FOLHAS

no meio do caderno, para ler depois, anotações de um ciclo de palestras; mais de dois anos se passaram, peguei agora. Pouca coisa das notas me dá alguma informação precisa -  incompletas e lacunares demais. Não sei o que foi dito pelos professores e o que eu mesma pensei. Alguma coisa ali ainda é verdade para mim hoje.

DAS POUCAS CERTEZAS

uma delas: ela gosta de dar aula. Certeza ingênua ou incompleta, difícil de explicar; com dores e defeitos, ser professora agrada, dá vontade. Sente que não terminou de viver a sua adolescência, e vive a que vê nos outros.

UM ALUNO

meu, que já tem uns cinquenta anos, estava adolescente no meu sonho. E eu era professora da escola: ele no meio de vários outros alunos como ele, iam se tornando irreconhecíveis, difíceis de discernir – quem é quem? Todos muito iguais, agindo como um grupo, de uniforme. A professora, como a aquela do Petit Nicolas, sem muita força para lutar contra a maioria, contra os espaços imensos – corredores, pátio e escadarias – da escola.

DESDE QUANDO

gosto especialmente de elefantes? eles aparecem nos meus desenhos? começo a acumulá-los na vida? recebo elefantes nas mais diferentes formas como presente? Hoje encontrei num caderno do terceiro colegial uma marca, talvez mais próxima do começo dessa obsessão – em meio a recados trocados na aula, poeminhas, desenhos mil, contagem de votos, equações trigonométricas e rascunhos de redação.

DOIS SONHOS

mãos se estendem; querem pegar ou largar?

no primeiro, a professora me repreendia, criticava, reprovava tudo o que eu fazia; eu me alterava, chorava, tentava me defender como podia; nada adiantava. A professora ria ao me ver naquele estado.

Em outro, eu estava dando uma palestra em conjunto com outras pessoas. Falava de tudo e de nada. Era algo como um relato pessoal sobre questões da educação superior. Defendíamos os cursos amplos, abrangentes, e nos colocávamos contra cursos muito especializados. As pessoas se movimentavam, eu não sabia onde ficar, pra que lado me dirigir.