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HORA AZUL

fica no espaço que separa o dia da noite.

NÃO SE SABE

direito onde começa o céu, cheio de nuvens; e onde termina a água, que reflete o céu.

FLOR DE PAPEL

“PORQUE O REI

fazia questão que sua autoridade fosse respeitada”.

Assim é o monarca que o Pequeno Príncipe encontra em sua viagem. É uma das personagens que mais me marca no livro. Isso porque tem uma sabedoria muito prática:

- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem – ele ou eu – estaria errado?
- Vós, respondeu com firmeza o principezinho.
- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.
- E meu pôr-do-sol? lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.
- Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de governo, que as condições sejam favoráveis.
- Quando serão? indagou o principezinho.
- Hem? respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. Será lá por volta de… por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem obedecido.

E NESTE DOMINGO

eram seis da tarde

e eu só queria registrar o momento, a música feita do que vinha pela janela.

SURPRESA NA SALA DAS PROMESSAS

em Aparecida, me dei conta de que alguns dos meus desenhos obsessivos que faço nas margens das folhas, durante aulas, podem se assemelhar a ex-votos.

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UM EXERCÍCIO

(de estilo? sob contrainte?) em torno de um tema que me obseda e que tem tomado conta de conversas:

DAS LIMITAÇÕES

Somos seres limitados que têm consciência disso – e talvez os únicos que tentam lutar contra algumas limitações ao mesmo tempo em que criam outras. Tendem a aceitar muito bem as próprias limitações (prova de bom-senso e respeito ao próximo), mas pouco provavelmente aceitam tão bem as limitações (escolhas) dos outros. Com isso, podem pregar uma liberdade que tiraniza: – exercício de dar nomes às coisas?

NÃO DIZER NADA

mas mostrar.

Coreografar os mínimos movimentos cotidianos, arquitetar todos os planos em espaços milimetricamente simétricos, ou quando não, ao menos demarcá-los muito bem, para que neles as cores falem por si mesmas, que os olhares cúmplices digam tanto quanto as velhas canções. Mostrar que as coisas não são naturais.

O que resta do tempo” tem muito do humor silencioso de Buster Keaton ou de Jacques Tati (fiquei com medo de essa minha impressão durante o filme ser um lugar-comum), tanto pelo vazio-cheio do cotidiano, como pela própria presença deles frente às câmeras. Eles circulam por entre os outros personagens menos para agir do que para multiplicar e desequilibrar o olhar.

Elia Suleiman traz a história de seu pai e de sua mãe, mais do que a história de seu retorno à casa; e é menos uma tentativa de contar a ocupação do que simplesmente contá-la como se pode, com o silêncio resignado e resistente, com esmero em criar coisas belas. De um mesmo belo de “Paradise now”, outro palestino.

Suleiman fala de outro retorno seu a Nazaré em “Crônica de um desaparecimento“, que está completo no youtube, assim como “Intervenção Divina“, entre vários outros filmes palestinos . Uma experiência e tanto, ver um longa no youtube em várias partes…

E mesmo assim, pensando nas experiências que são os filmes, não consigo evitar: adoro essas fotos de Cannes, que mostram talvez a razão de ser do cinema.

DOIS VÍDEOS

um o Ciço mandou, porque lembrou de mim – tanto pela colher pela banana.

Outro fico me lembrando e cantando esses dias.

GRANDES ESPAÇOS

são constantes nos meus sonhos. Grandes e lindos, eles muitas vezes se movem.

Foi o caso de um sonho muito bonito, semana passada. Estava no apê do Cícero. Era e não era onde ele mora. A questão é que da janela víamos prédios se moverem, como se estivéssemos num trem. Ficamos com vontade de passear e conhecer um desses prédios raros e belos.

Era um mosteiro, algo assim. Estava correndo o risco de ser demolido, mas felizmente conseguiram recuperar a construção. Transformaram num spa, num hotel. Há duas alas, com rampas – algo semelhante pode ser visto em Higienópolis, bem menorzinho do que no sonho.

Uma ala para homens, outra para mulheres. Entramos na ala dos homens, eu invadindo território que não poderia. Tudo cheio de cores azuis e rosa em vários tons. Uma antiga capela continuava no lugar, diferente: nela a gente escorregava no chão, como num tobogã. Quem fez a capela assim? Queria ler o que estava escrito nas paredes e não conseguia.

Me escondendo, vi em outra sala uns homens dentro de banheiras, dormindo.